sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Tadarida teniotis

A monitorização durante alguns anos de um abrigo de Tadarida teniotis no Parque Natural do Alvão, fez crescer em mim um fascínio sobre estes estranhos bichos com aspecto (apenas o aspecto) feroz, estranho e de longo rabo. Cada vez que ia contar os bichos à saída do abrigo (uma fenda no meio de um cabeço granítico), o momento era mágico. Após uns 15-20 minutos depois do pôr-do-sol começavam a sair os primeiros indivíduos, um atrás de outro, em apenas 5 minutos, os 200 e poucos bichos saíam em busca de alimento, passavam por cima de nós a 2-3 m de altura, e os mais de 40 cm de envergadura faziam-se sentir pelo barulho do seu voar. A saída dos bichos era precedida por 20 minutos de uma intensa algazarra dentro da fenda, visto que as vocalizações desta espécie são audíveis ao ouvido humano!

Face ao seu carácter fissurícola e à dificuldade em conseguir capturá-lo, a sua observação em mão é bastante rara.

Um dia, enquanto colaborador do Parque Natural do Alvão, recebi um telefonema da Casa do Douro, no qual se queixavam de terem morcegos dentro do gabinete do Presidente, tendo conseguido, até ao momento, aspirar dois, mas os outros como estavam atrás dos radiadores não os conseguiam aspirar! Fiquei “fulo”! Após ameaça de uma contra-ordenação, consegui finalmente convencer o senhor a desligar o aspirador! …30 minutos depois lá estávamos na Régua, eu, a Cristina e o Roberto, dentro do gabinete do senhor Presidente a apanhar os bichos! Havia bichos por todo o lado, atrás dos radiadores, dos armários, quadros, enfim…foi preciso vascular os cantos e fissuras todas do gabinete, no final conseguimos apanhar 15 bichos (3 fêmeas e 12 machos). Curiosos por sabermos a razão pela qual estavam este bichos dentro do gabinete, falei com uma pessoa que me dizia que o Presidente se queixava do barulho e…alguém (inteligente) se lembrou de tapar a caixa dos estores do lado exterior durante o período diurno! Conclusão…impedidos de saírem do seu abrigo no final do dia, os bichos saíram pelo único orifício que restava, que para azar o deles era do lado interior, e dava directamente para o gabinete do senhor Presidente. Lá tive então que explicar ao senhor a melhor forma de impedir que os morcegos voltassem a ocupar a caixa do estore. Todos os bichos foram levados para o CRATAS (Centro de Recepção, Acolhimento e Tratamento de Animais Selvagem) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e após uma noite de recuperação foram todos libertados na noite seguinte junto ao local de recolha.

Menos sorte tiveram os dois que estavam no contentor do lixo dentro do saco aspirador…


Identificação:

O Tadarida teniotis é um morcego robusto com orelhas grandes e asas muito longas. Tem pêlo curto, macio, preto ou castanho com reflexos prateados. As áreas desprovidas de pêlo são cinzentas, as orelhas são grandes, arredondadas, unidas na sua base e projectadas em direcção ao focinho. Os olhos são grandes e o lábio superior normalmente tem cinco dobras. A cauda estende para além da membrana, cerca de 5cm (daí o seu nome comum: Morcego-rabudo) e é coberta por cerdas.

Espécies similares:

Em Portugal não existem espécies passíveis de serem confundidas com o Tadarida teniotis.

Ecolocalização:

Apresentam uma grande variedade de chamamentos sociais, que são emitidos dentro dos abrigos e em voo, são características as exibições sonoras dos machos dominantes durante as investidas aéreas. Esta espécie emite entre os 9-15kHz com máxima intensidade nos 11,4kHz, frequências audíveis pelo ouvido humano.

Distribuição:

Na Europa distribui-se apenas na parte Sul entre a Península Ibérica e a Turquia. Em Portugal é uma espécie de distribuição ampla.

Habitat:

Espécie presente desde o nível do mar até aos 2000 m de altitude, preferindo zonas montanhosas e zonas costeiras, locais com grande disponibilidade de abrigos. Os habitats utilizados como áreas de caça são sobretudo zonas florestadas, plantações florestais novas, olivais, podendo utilizar também grandes planos de água, zonas urbanas e áreas agrícolas.

Reprodução:

Os indivíduos desta espécie atingem a maturidade sexual no primeiro ano de idade, sendo os grupos de reprodução constituídos por um macho e até nove fêmeas. As crias (apenas 1 por fêmea) nascem entre o final de Junho e início de Julho e são amamentadas durante 6-7 semanas, consequentemente podem ser observadas fêmeas lactantes em Outubro.

Alimentação:

A sua dieta alimentar baseia-se basicamente em insectos voadores e 65-90% da sua dieta é constituída por traças de grandes dimensões como por exemplo Macroglossum stellatarum.

Longevidade e mobilidade:

A média máxima registada, até à data, é de 13 anos de idade.

É uma espécie tipicamente sedentária e, ao contrário da maioria dos morcegos existentes em Portugal, os morcegos-rabudos utilizam os mesmos abrigos durante todo o ano. As áreas individuais de caça são de aproximadamente 100 ha e normalmente a menos de 30 km do abrigo, contudo no Verão a área de caça pode distar mais de 100 km do abrigo.

Medidas de conservação:

Preservação de agricultura extensiva, limitação de uso de pesticida. Protecção e conservação de abrigos naturais (arribas, penhascos e afloramentos rochosos), e artificiais (edifícios).

Dimensões:

Tem um comprimento de antebraço (FA) que varia entre 54,7- 69,9 mm (FA médio = 57,58 mm, dados pessoais) e tem um peso de 20-30 g (Peso médio = 34,15 g, dados pessoais).

Estatuto de conservação:

De acordo com a UICN, esta espécie é classificada como “Least Concern” (LC); de acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal é classificada como “Informação insuficiente” (DD), não existindo até à data informação adequada para avaliar o risco de extinção, nomeadamente quanto à redução do tamanho da população e à tendência de declínio.

Esta espécie encontra-se no Anexo BIV da Directiva Habitat, sendo de interesse comunitário, cuja conservação exige protecção rigorosa.

Curiosidades:

Esta espécie pode atingir os 65 km/h (velocidade de voo) e pode caçar a 300 m de altura.

Uma das maiores colónias desta espécie que conheço está localizada no Hospital Distrital de Chaves, com algumas centenas de indivíduos.

O Tadarida teniotis, juntamente com os Rhinolophus sp., são as espécies mais difíceis de capturar (com redes de nebelina).

Referências e Sites:

Arlettaz, R. (1993). Tadarida teniotis tail. Myotis 31:155-162.

Arlettaz, R., C. Ruchet, J. Aeschiman, E. Brun, M. Genoud & P. Vogel (2000). Physiological traits affecting the distribution and wintering strategy of the bat Tadarida teniotis. Ecology 81:1004-1014.

Dietz, C., O. V. Helversen & D. Nill (2009). Bats of Britain, Europe & Northwest Africa. A & C Black Publishers Ltd.

Livro Vermelho de Portugal

Livro Vermelho de Espanha

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Alimentação de crias de Circus pygargus

video

Estas imagens foram captadas em Alijó no âmbito de um estágio de fim de curso de Ecologia Aplicada da UTAD, realizado no Laboratório de Ecologia Aplicada pelo João Gaiola em 2008.

Link para o estágio:

Gaiola, E. P. J. 2008.Ecologia Reprodutiva de uma População de Tartaranhão-caçador (Circus pygargus, L.) nidificante no Nordeste de Portugal


quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Trithemis annulata

Introdução:

A primeira vez que capturei esta espécie foi uma fêmea imatura, a qual me deu enorme “luta” na identificação, justamente por ser a minha primeira observação. Além disso tive a sorte de ser um espécime imaturo…é uma sorte encontrar bichos que nos façam reflectir! Após uns bons 45 minutos e depois de já ter excluído todas as espécies do género Sympetrum que estavam referenciadas para o local…Sim, para mim este indivíduo tinha toda a aparência de ser um Sympetrum, só que possuía certas características que não batiam certo…Não tinha chegado a conclusão nenhuma e decidi tirar umas fotos para alguém me ajudar. No preciso momento em que estava a recolher os guias, um deles abriu-se na página da Trethemis annula! Tinha excluído completamente a possibilidade de ser esta espécie, uma vez que não estava referenciada para a região e afinal…era mesmo uma Trithemis annulata!

A Trithemis annulata é uma espécie da Família das Libellulidae, tipicamente africana presente em Países como Argélia, Angola, Camarões, Congo Egipto, Guiné, Gana, Quénia, Senegal, Serra Leoa, África do sul ou Tanzânia, encontra-se em expansão na Península Ibérica com uma distribuição cada vez mais Setentrional, assim como em alguns Países banhados pelo Mediterrânico tais como Malta e Itália onde foi recentemente referenciada a sua presença e reprodução.

Habitat:

Os machos preferem pousar em cima de pedras ao sol e em árvores e vegetação quando o sol é encoberto por nuvens. Esta espécie pode encontrar-se num leque variado de corpos de água, mas prefere sobretudo cursos de água estagnada, bastante soalheiros, como lagoas e lagos sem grande vegetação marginal, em regiões semi-áridas. É uma espécie localmente comum mas não abundante.

Descrição:

A coloração geral púrpura dos machos coloca esta espécie numa das mais bonitas ocorrentes em Portugal Continental. Esta coloração não deixa dúvidas aquando da sua identificação, e além disso possui rosto, olhos, segmentos S8-10 e veias das asas vermelhas e uma mancha âmbar na base das asas posteriores. A fêmea tem o ventre amarelo e tórax branco-amarelado marcados com fortes linhas pretas, a mancha âmbar na base das asas posteriores também está presente na fêmea. Ambos os sexos têm manchas pretas nos segmentos abdominais 8 e 9.

Estatuto de conservação:

De acordo com a UICN esta espécie é classificada como “Least Concern”.

Curiosidade:

Uma das características desta espécie, que nos pode ajudar na sua identificação, é a sua postura. Muitas vezes, em especial nos dias de maior insolação, tem uma posição "obelisco" de forma a reduzir a superfície em contacto com a luz do sol, controlando assim a temperatura corporal.

Muito embora os mais recentes guias de campo deste grupo faunístico (Askew, 2004; Dijkstra & Lewington, 2006), mencionem a presença desta espécie apenas para o Centro e Sul de Portugal, existem observações desta espécie na Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo (quadrícula 10×10km PG70), Sítio Rio Sabor e Maçãs (quadrícula 10×10km PF87 e PF88) e no Rio Tua (quadrícula 10×10km PF37) (dados inéditos de Paulo Barros e Pedro Moreira).

Referências e sites:

Askew, R. R. (2004). The dragonflies of Europe. Harley Books. Colchester.

Dijkstra, K. D. B., Lewington, R. (2006). Field guide to the Dragonflies of Britain and Europe. British Wildlife Publishing.

Odonatas do Paleártico

Grupo de Estudo dos Odonatas da Catalunha