quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Trithemis annulata

Introdução:

A primeira vez que capturei esta espécie foi uma fêmea imatura, a qual me deu enorme “luta” na identificação, justamente por ser a minha primeira observação. Além disso tive a sorte de ser um espécime imaturo…é uma sorte encontrar bichos que nos façam reflectir! Após uns bons 45 minutos e depois de já ter excluído todas as espécies do género Sympetrum que estavam referenciadas para o local…Sim, para mim este indivíduo tinha toda a aparência de ser um Sympetrum, só que possuía certas características que não batiam certo…Não tinha chegado a conclusão nenhuma e decidi tirar umas fotos para alguém me ajudar. No preciso momento em que estava a recolher os guias, um deles abriu-se na página da Trethemis annula! Tinha excluído completamente a possibilidade de ser esta espécie, uma vez que não estava referenciada para a região e afinal…era mesmo uma Trithemis annulata!

A Trithemis annulata é uma espécie da Família das Libellulidae, tipicamente africana presente em Países como Argélia, Angola, Camarões, Congo Egipto, Guiné, Gana, Quénia, Senegal, Serra Leoa, África do sul ou Tanzânia, encontra-se em expansão na Península Ibérica com uma distribuição cada vez mais Setentrional, assim como em alguns Países banhados pelo Mediterrânico tais como Malta e Itália onde foi recentemente referenciada a sua presença e reprodução.

Habitat:

Os machos preferem pousar em cima de pedras ao sol e em árvores e vegetação quando o sol é encoberto por nuvens. Esta espécie pode encontrar-se num leque variado de corpos de água, mas prefere sobretudo cursos de água estagnada, bastante soalheiros, como lagoas e lagos sem grande vegetação marginal, em regiões semi-áridas. É uma espécie localmente comum mas não abundante.

Descrição:

A coloração geral púrpura dos machos coloca esta espécie numa das mais bonitas ocorrentes em Portugal Continental. Esta coloração não deixa dúvidas aquando da sua identificação, e além disso possui rosto, olhos, segmentos S8-10 e veias das asas vermelhas e uma mancha âmbar na base das asas posteriores. A fêmea tem o ventre amarelo e tórax branco-amarelado marcados com fortes linhas pretas, a mancha âmbar na base das asas posteriores também está presente na fêmea. Ambos os sexos têm manchas pretas nos segmentos abdominais 8 e 9.

Estatuto de conservação:

De acordo com a UICN esta espécie é classificada como “Least Concern”.

Curiosidade:

Uma das características desta espécie, que nos pode ajudar na sua identificação, é a sua postura. Muitas vezes, em especial nos dias de maior insolação, tem uma posição "obelisco" de forma a reduzir a superfície em contacto com a luz do sol, controlando assim a temperatura corporal.

Muito embora os mais recentes guias de campo deste grupo faunístico (Askew, 2004; Dijkstra & Lewington, 2006), mencionem a presença desta espécie apenas para o Centro e Sul de Portugal, existem observações desta espécie na Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo (quadrícula 10×10km PG70), Sítio Rio Sabor e Maçãs (quadrícula 10×10km PF87 e PF88) e no Rio Tua (quadrícula 10×10km PF37) (dados inéditos de Paulo Barros e Pedro Moreira).

Referências e sites:

Askew, R. R. (2004). The dragonflies of Europe. Harley Books. Colchester.

Dijkstra, K. D. B., Lewington, R. (2006). Field guide to the Dragonflies of Britain and Europe. British Wildlife Publishing.

Odonatas do Paleártico

Grupo de Estudo dos Odonatas da Catalunha



5 comentários:

Luis Braz disse...

Aquilo de o guia se abrir na página certa, acho que foi intervenção divina... eheh

Anabela Paula disse...

Instruções rápida para identificação de espécies:
1. Agarrar 1 guia de campo do grupo que se pretende identificar.
2. Iniciar a observação minuciosa da espécie alvo de identificação.
3. Olhar para o guia com olhar de quem não precisa daquilo.
4. Fingir que não está interessado em identificar a espécie, ou que já se identificou e agarrar o guia assim como se o fossemos devolver prateleira.
4. E Charannn! O guia abre-se na página certa e temos a espécie identificada!=)

hehe
que fixe!
Obrigado Paulo por partilhar a coincidência!

Engenheiro Mouta disse...

Caríssimos:

Poderá esta espécie típica de Àfrica, estar a migrar para norte, nomeadamente zonas circundantes do Mediterrâneo, como consequência directa das alterações climáticas?
Trithemis annulata pode bem ser um bio indicador destes fenómenos.

Um grande bem haja e bom trabalho

Paulo Barros disse...

Caro Engenheiro Mota,

Esta espécie foi confirmada na Península Ibérica em 1981, na Córsega em 1989, na parte mediterrânica francesa em 1994 e em Malta em 2005. Este fenómeno pode realmente ser explicado por duas razões: 1) pelo aquecimento global ou 2) pela expansão desta espécie provocado pela sua adaptação paulatina ao clima temperados depois da última glaciação.

Boas leituras

Engenheiro Mouta disse...

Caro Paulo Barros:

Antes demais esqueça o Engº que foi uma brincadeira que pegou, graças ao nosso 1º Ministro, no meio "blogueiro".
O facto é que o meu nome é Tiago Mouta e não "Mota"...
Voltando ao assunto original, a hipótese que eu formulei acerca da possibilidade da actual localização da Trithemis annulata ser um bio indicador do fenómeno do aquecimento global, como aliás tantas outras espécies!
A expansão desta espécie para climas mais temperados por eventual processo adaptativo, é de facto uma hipótese mas apenas registada nos últimos trinta anos...
30 anos para a adaptação de uma espécie a um novo bioma com características diferentes como temperatura, humidade, disponibilidade de alimento e predadores naturais parece-me um intervalo de tempo um pouco curto, tendo em conta o sucesso com que esta espécie se difunde pelo Mediterrâneo Norte, é este raciocínio que me remete para o fenómeno de alterações climáticas, assim a Trithemis annulata não terá sofrido um processo de adaptação radical (em 30 anos, desde a primeira observação em 1981 na Peninsula Ibérica!), mas apenas ter "alastrado" para um bioma que lhe era familiar e com condições muito favoráveis para o seu desenvolvimento.

Continuem o bom trabalho

P.S- Adorei o método de identificação de espécies, revelou-se extremamente eficaz ;)

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