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sábado, 19 de agosto de 2017

Espécie com Informação Insuficiente (DD)

Um taxon considera-se com Informação Insuficiente (DD) quando não há informação adequada para fazer una avaliação direta o indireta de seu risco de extinção, com base na sua distribuição e/ou estado da sua população. Um taxón incluído nesta categoria pode estar muito bem estudado e a sua biologia ser bem conhecida, mas se faltarem dados adequados sobre a sua distribuição e/ou abundância, não poderão ser incluídos em nenhuma categoria senão esta.

A classificação de um taxon nesta categoria, indica que é necessário mais informação e que seja reconhecido que a investigação futura aporte uma classificação diferente que poderá ser de conservação desfavorável ou não.

Deste modo é necessário fazer uso de toda a informação disponível. Das 25 espécies registadas para Portugal Continental 9 estão classificadas com Informação Insuficiente (DD).

Em 2010 apresentamos um Poster no congresso SECEMU com os dados recolhidos à data sobre estas espécies, os resultados eram os seguintes:
Barbastella barbastellus – registo em 8 quadrículas 10X10 UTM
Hypsugo savii – registo em 12 quadrículas 10X10 UTM
Myotis emarginatus – registo em 3 quadrículas 10X10 UTM
Myotis mystacinus – registo em 3 quadrículas 10X10 UTM
Nyctalus leisleri – registo em 9 quadrículas 10X10 UTM
Nyctalus noctula – registo em 1 quadrículas 10X10 UTM
Nyctalus lasiopterus – sem registo
Plecotus auritus – registo em 5 quadrículas 10X10 UTM
Tadarida teniotis - sem registo

Passados quase 7 anos este são os novos dados.

Todas estes dados estão disponível no nosso blog, para isso basta selecionarem a espécie através do “scroll” que está de baixo da entrada “Mapa de Observações de Morcegos” na barra lateral deste Blog.

Barbastella barbastellus
Mapa de registos de Barbastella barbastellus 


Hypsugo savii
Mapa de registos de Hypsugo savii 


Myotis emarginatus
Mapa de registos de Myotis emarginatus 


Myotis mystacinus
Mapa de registos de Myotis mystacinus 


Nyctalus leisleri
Mapa de registos de Nyctalus leisleri 


Nyctalus noctula
Mapa de registos de Nyctalus noctula


Nyctalus lasiopterus
Mapa de registos de Nyctalus lasiopterus 
Plecotus auritus
Mapa de registos de Plecotus auritus 


Tadarida teniotis
Mapa de registos de Tadarida teniotis

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Morcegos em casa. E agora?

O Verão é uma época em que é frequente encontrarmos morcegos dentro de casa. Assim sendo damos algumas explicações e indicações para ajudar a resolver este tipo de situações.

Primeiramente é importante salientar que há várias espécies de morcegos que se abrigam em nossa casa, maioritariamente no exterior (telhados, fissuras e buracos das paredes)  ou geralmente em divisões pouco (ou nunca) usadas (sótãos e caves). Não é um hábito destes animais entrar para caçar ou abrigar-se em divisões que sejam constantemente a ser usadas pelo homem, um vez que se sentem expostos nessas situações.

Quando um morcego entra numa divisão diariamente ocupada de uma casa habitada, fá-lo por acidente, ou porque foi em perseguição de insetos atraídos pela luz, ou porque se abrigou numa estrutura com acesso ao exterior (caixilho da janela, ou chaminé) e quando tentou sair para a rua fê-lo no sentido errado, ou por distração e falta de experiência que será a causa mais comum nesta época.
Este último caso acontece frequentemente quando os juvenis estão a sair do abrigo e a aprender a voar, essencialmente entre Julho Setembro/Outubro. Como os indivíduos novos não têm muita experiência e resistência, andam um pouco “às aranhas” e acabem por entrar por uma janela ou porta aberta e como não dão com a saída, ficam a voar dentro da divisão, ou pousam em algum lugar (incluindo o chão).

Quando isso acontece a melhor coisa a fazer é fechar as portas para as outras divisões para impedir que eles se percam dentro de casa, abrir as janelas, apagar a luz e deixar o morcego sozinho para ele não ter medo e poder sair do local onde está e ir par ao exterior. Passados alguns minutos é só verificar se ele ainda está dentro da divisão, e se estiver, repetir o processo. Isto poderá ir de alguns minutos a várias horas, mas geralmente não demora mais do que alguns minutos.

No caso de mesmo assim ele não sair, porque poderá estar ferido ou doente é importante antes de mais, lembrar que para capturar e manusear morcegos é necessário uma autorização específica do ICNF, pelo que o mais correto é ligar para o ICNF ou SEPNA (GNR). Se for necessário pegar-lhe ou manuseá-lo, deve ser usada uma luva de couro ou borracha e para o libertar deve ser colocado no exterior, num sítio alto (tronco de árvore ou muro).

Uma nota muito importante, nunca pegar num morcego que esteja pousado no chão ou num sítio acessível e exposto. Um dos sintomas da Raiva é desorientação, e esse morcego pode estar contaminado, razão pela qual está parado num local tão desabrigado.

Outra das situações com que já me deparei, é o morcego ir abrigar-se numa divisão ocupada para passar o dia (dormir). Isto pode acontecer porque algumas espécies não passam os dias no mesmo abrigo todas as noites, e como é costume de verão termos as janelas de casa abertas durante a noite, os morcegos que vão a passar, acham que a nossa casa dará um bom abrigo de emergência, embora eles consigam perceber que a casa está ocupada por humanos (pelo odor por exemplo), nesse caso é proceder do mesmo modo devem fechar-se todas as janelas e portas dessa divisão (deixando o morcego sossegado), que deverão ser abertas ao início da noite, altura em que ele procura sair para a rua.


Se detetarem um abrigo de alguma colónia de morcegos em vossa casa e se quiserem ‘livrar’ dele, não os matem. Todas as espécies de morcegos são protegidas por lei, pelo que o melhor é contactar o ICNF ou o SEPNA para resolver a situação da melhor maneira possível. A Natureza agradece e nós também pois os morcegos prestam-nos um grande serviço ambiental.

As espécies que mais frequentemente entram nas casas pertencem aos géneros Pipistrellus sp. e Rhinolophus sp.


Morcego de Kuhl (Pipistrellus kuhlii)




Morcego-de-ferradura-pequeno (Rhinolophus hipposiderus)

sábado, 28 de março de 2015

Abrigos de morcegos



Contrariamente a outros mamíferos, os morcegos são incapazes de construir os seus próprios abrigos, deste modo, dependem da disponibilidade destes no meio em que vivem, por isso os abrigos são locais cruciais para a estratégia vital dos morcegos, cada espécie seleciona esse mesmos abrigos em função do seu microclima, estrutura e volumetria. As espécies troglófilas elegem cavidades subterrâneas naturais ou artificiais e compartimentos habitacionais. A maior parte das espécies preferem refugiar-se na superfície do teto ou em paredes (e.g. Rhinolophus, Myotis myotis, Myotis blythii ou Miniopterus schreiberssi), embora haja algumas espécies que podem utilizar fissuras dentro destes abrigos (e.g. Myotis daubentonii ou Plecotus austriacus). Já as espécies fisurícolas usam fendas estreitas em construções e/ou paredes rochosas (e.g.; Hypsugo savii, Tadarida teniotis, Eptesicus ou os Pipistrellus) e os eminentemente arborícolas (Myotis bechsteinii, Plecotus auritus ou os Nyctalus) abrigam-se em buracos e fissuras de árvores. Contudo, esta classificação não é estrita, já que certas espécies são muito plásticas relativamente à escolha do tipo de abrigo, utilizando-os em função do seu estado fenológico, sexo e/ou época do ano.

LEGENDA: Intensidade de uso: F – frequente; R – raro; E- excecional; N- nunca; D - Registo bibliográfico. Periodicidade de uso: A – período de atividade; H – período de hibernação. Localização: T- teto; F – fissuras (a maiúscula colónias grandes e minúscula poucos indivíduos ou isolados). Adaptado de Quetglas & Garido, 2014.

De uma forma geral os morcegos para a hibernação preferem abrigos com temperaturas baixas e humidade relativa elevada, enquanto que na época de criação os abrigos quentes e secos são os preferidos (principalmente pelas fêmeas), pois estas condições favorecem o desenvolvimentos dos embriões e crias e diminuem os gastos energéticos das progenitoras.

CR7
 Nyctalus lasiopterus

 Rhinolopus euryale

 Eptesicus serotinus

A destruição de habitat é uma das maiores ameaçadas para a conservação dos morcegos, esta destruição/alteração de habitat tem-se refletido na tipologia de abrigos utilizados pelos morcegos, os casos mais evidentes são os do Barbastella barbastellus e dos Plecotus que têm substituído cada vez mais os seus abrigos maturais (árvores) por estruturas antrópicas.
 Myotis myotis

 Pipistrellus pygmaeus

 Plecotus aurtitus

domingo, 5 de outubro de 2014

Swarming de Myotis bechsteinii no Norte de Portugal



Myotis bechsteinii
 Myotis bechsteinii

Embora seja uma espécie eminentemente florestal e em particular ligada a florestas de folhosas bem desenvolvidas, o facto do Morcego de Bechstein (Myotis bechsteinii) se tratar de uma espécie altamente sedentária com deslocações em torno de 1Km (embora os machos se possam deslocar mais) faz com que esta espécie possa ser encontrada em pequenas bolsas residuais de folhosas no meio de outros habitats (um dos exemplos são as pequenas manchas residuais de carvalhos e castanheiros que existem no meio da exploração de pinheiro, eucaliptos e pseudotsuga da Portucel na Serra da Malcata). De facto as espécies termófilas como o Myotis bechsteinii foram mais abundantes durante o holoceno quando os bosques mistos e temperados abundavam no nosso território, atualmente esta espécies encontra-se em regressão e a sua distribuição está cada vez mais limitada aos habitats residuais desse período.

Myotis bechsteinii
Myotis bechsteinii

Myotis bechsteinii
Myotis bechsteinii

 Myotis bechsteinii
  Myotis bechsteinii


De acordo com o Atlas de Morcegos de Portugal, os registos atuais do Morcego de Bechstein restinguem-se a meia dúzia de quadrículas UTM (10x10kM) e mais 8 registos históricos, pelo que é uma das espécies de morcegos mais raras e com uma população mais fragmentada em Portugal.

 
Mapa de distribuição de  Myotis bechsteinii (fonte: Atlas de Morcegos de Portugal)


Entre o final do Verão e do Outono, a maior parte das nossas espécies de morcegos reúnem-se em abrigos subterrâneos, onde caçam (no interior e no seu entorno), exibem comportamentos de voo particulares, emitem vocalizações de socialização e acasalam. Este fenómeno é designado de swarming (que traduzido à letra significa enxame ou ajuntamento) e cada uma das espécies, entre o final do Verão e do Outono tem o seu período de swarming que pode variar em função da dimensão da população, da espécie e das condições climáticas.

Myotis emarginatus

Pormenor dos epidídimos de um Myotis emarginatus em época de acasalamento

Estes locais de swarming desempenham um papel fulcral na conservação das populações de morcegos já que são locais onde muitas espécies acasalam. Um único sítio swarming pode ser o local de acasalamento de várias espécies diferentes, além de que a congregação de muitos indivíduos da mesma espécie faz com que haja um fluxo genético entre as populações mais isoladas, diminuindo assim a sua endogamia.


Myotis bechsteinii

 Myotis bechsteinii

Por uma questão de proximidade e contenção de custos (em particular quando os gastos saem do nosso bolso), os nossos trabalhos estão muito centrados no Norte de Portugal e de facto a informação que temos recolhido durante os últimos 6 anos já é considerável não só em termos de distribuição de observações, como na identificação de locais importantes para a conservação dos morcegos, como por exemplo este local de swarming de Barbastella barbastellus. Desta vez foi a identificação de um local de swarming de Myotis bechsteinii, M. escalerai e de M. emarginatus.

Myotis escalerai
  Myotis escalerai

Myotis escalerai
 Myotis escalerai

Myotis emarginatus
Myotis emarginatus

Myotis emarginatus

Myotis emarginatus

A proteção eficiente dos morcegos deve incidir sobre todos os refúgios utilizados durante todo o ciclo anual (hibernação, reprodução, migração e acasalamento) e não só sobre os mais convencionais (hibernação e reprodução). Tendo em conta a importância que os locais sawrming representam, seria importante desenvolver esforços para os localizar, identificar e caracterizar de modo a serem devidamente classificados como de Importância Nacional (como já o são os abrigos de criação e hibernação). Acresce o facto, que muitos destes locais são sítios onde ocorrem espécies raras e com estatuto de conservação desfavorável como é o caso do Myotis bechsteinii que está classificado de Em Perigo.

Myotis bechsteinii
 Myotis bechsteinii

sexta-feira, 1 de março de 2013

Répteis - Dois em um



Foi já no mês de Outubro que, no final de mais um dia de campo, me deparei com um acontecimento que nunca antes tinha testemunhado. Pelo menos não com estas duas espécies…
No meio do caminho estavam duas espécies de répteis que, à primeira vista, pareciam estar tranquilamente a apanhar os últimos raios de sol desse dia. Nesse momento não tinha a noção de que algo de muito mais “interactivo” estaria para acontecer.
Vamos conhecer os protagonistas. De um lado estava um sardão Timon lepidus a maior espécie de lagarto da península ibérica que, segundo alguma bibliografia, pode atingir os 80cm (a cauda pode ser bastante grande). Esta espécie prefere habitats com alguma vegetação arbustiva com boa exposição solar e alimenta-se maioritariamente de insectos como escaravelhos ou gafanhotos. O indivíduo que tinha à minha frente tinha um pouco mais de 20 centímetros e parecia bastante descontraído a apanhar sol.


Um pouco mais ao lado, no meio do caminho estava uma cobra-de-ferradura Hemorrhois hippocrepis. Esta espécie também pode atingir grandes dimensões e tem fama de ser um pouco agressiva para com os seus captores (não se pode censurar!). A cobra-de-ferradura apresenta uma coloração característica com vários círculos escuros delimitados por uma banda mais clara, embora este exemplar não apresentasse a coloração mais típica. É uma espécie não venenosa e que se alimenta de aves e répteis que procura activamente usando a sua agilidade e rapidez. 


Alguns já imaginam o que se passou a seguir…
Ora nem mais, eis que a cobra-de-ferradura se aproxima do impávido e sereno sardão e abre as hostilidades com uma "mordidela" na cabeça. 


Na altura, e não conhecendo bem as capacidades de deglutição desta cobra, pareceu-me que ela tinha “mais olhos que barriga” já que o sardão me parecia demasiado grande para que ela o pudesse comer. Dentro de alguns minutos percebi que estava enganado, o sardão tinha o tamanho ideal para uma boa refeição antes do período de hibernação. Após a primeira “trinca” a cobra já não voltou a largar o lagarto e começou imediatamente a ingerir a sua presa que, até então tinha dado pouca luta. Fiquei impressionado com a capacidade da cobra deslocar as mandíbulas e conseguir engolir uma presa tão grande.


 Já demasiado tarde o sardão se terá apercebido de que a cobra não tinha “boas intenções” já que só começou a debater-se já a refeição ia a meio. 


Ainda tentou usar os seus poderosos membros posteriores para se livrar de ser comido mas sem sucesso, a cobra-de-ferradura só pareceu ter alguma dificuldade quando chegou a vez de engolir os membros anteriores onde o volume corporal do lagarto é um pouco maior. 


Com a refeição terminada, as mandíbulas reposicionadas, com um grande volume no estômago (só me fazia lembrar a serpente do “Principezinho”) e com o dia a terminar lá foi a cobra encontrar um local para pernoitar ou quem sabe passar o inverno.