sábado, 7 de maio de 2016

Myotis myotis o “peneireiro” dos morcegos


Em Portugal o morcego-rato-grande (Myotis myotis) é uma espécie colonial, de ocorrência mais frequente no norte e centro do nosso País.


È um espécie eminentemente cavernícola, podendo ocasionalmente utilizar edifícios.


A particularidade desta espécie é que uma das poucas espécie europeias especializada em predação epigeica de invertebrados não voadores, que captura no solo em campo aberto.


A sua dieta é composta por aproximadamente 80% de invertebrados da Ordem dos Coleoptera (Carabidae, Silphidae, Cerambycidae, Curculionidae e Scarabaeidae) e os restantes 20% por insetos da Ordem dos Lepidoptera, Diptera, Chilopoda e Araneae.


Esta espécie quando caça, voa a 30-70 cm acima do solo (ou superfície de caça), localizando as suas presas, não por ecolocalização como a maioria dos morcegos da nossa funa, mas pela audição do barrulho que os próprios insetos fazem.



As suas asas largas são uma adaptação morfológica evolutiva neste tipo de caça, que lhes permite após a localização das presas pairar durante 2-5 segundos para preparar o ataque e capturar a presa no solo, um comportando muito típico de algumas aves de rapinas como por exemplo o peneireiro-vulgar (Falco tinnunculus).



quinta-feira, 21 de abril de 2016

Nem carne nem peixe

O terno anfíbio, etimologicamente deriva do grego “amphi”, que significa “ambos” e “bio” que significa “vida”, a sua junção resulta no significado “ambas vidas”. A característica mais marcante destes vertebrados é o seu ciclo de vida que é dividido em duas fases: uma primeira aquática que engloba a fase de ovo e larva, e outra terreste que engloba a fase terrestre.

A transição entre estas duas fases, envolve uma serie de transformações chamadas de metamorfoses, entre os Urodelos (salamandras), as mais evidentes são a reabsorção da aleta caudal (parte inferior da cauda), desaparecimento das branquias com substituição de pulmões e a alteração da estrutura da pele, mantendo-se de um forma geral a sua forma (alongada) e estrutura (cabeça, tronco e membros). Já nos Anuros (sapos e rãs), as alterações são dramáticas, começando pelo desaparecimento das branquias e cauda e aparecimento das patas e das glândulas dermoides, a sua forma de girino (popularmente chamados de cabeçudos) constituída por um corpo esférico com uma cauda natatória transforma-se num vertebrado de cabeça tronco e membros.

 Posturas de Bufo bufo (sapo-comum)

  Posturas de Epidalea calamita (sapo-corredor)


Macho de  Alytes obstetricans (sapo-parteiro-comum) a deixar os avos na água

 Larvas de Epidalea calamita (sapo-corredor)


  Larvas de Pelobates cultripes (sapo-de-unha-negra)

   Larvas de Salamandra salamandra (salamandra-de-pintas-amarela)

   Larvas de Pelophylax perezi (rã-verde)

  Promenor da branquias de uma larva de Lissotriton boscai (tritão-de ventre-laranja)

  Metamorfo de Alytes cisternasii (sapo-parteiro-ibérico)

     Metamorfo de Alytes cisternasii (sapo-parteiro-ibérico)

 Adulto de Alytes cisternasii (sapo-parteiro-ibérico)


 Adulto de Pelurodeles walt (salamandra-de-costelas-salientes)

Adulto de Triturus mamoratus (tritão-marmoreado)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Anfíbios de Trás-os-Montes

À exceção da Hyla meridionalis (rela-meridional) que no nosso país tem a sua distribuição setentrional a zona do Sabugal, o pelodytes spp. (sapinho-de-verrugas-verdes) que no interior de Portugal tem mais ou menos o mesmo limite da rela-meridional e no litoral ocorre em toda a costa Portugal à exceção do Minho. Em Trás-os-Montes é possível observar as restantes 15 espécies de anfíbios existentes em Portugal Continental.
  
Salamandra Rabilarga
Chioglossa lusitanica (Salamandra-lusitanica)

Gallipato
Pleurodeles waltl (Salamandra-de-costelas-salientes)

Salamandra Común
Salamandra salamandra (Salamnadra-de-pintas-amarelas)

Tritón Ibérico
Tritus boscai (Tritão-de-ventre-laranja)

Tritón Palmeado
Triturus helveticus (Tritão-palmado)

Tritón Jaspeado
Triturus marmoratus (Tritão-marmorado)

Sapo Partero Ibérico
Alytes cisternasii (Sapo-parteiro-ibérico)

Toad Sapo Partero Común
Alytes obstetricans (Sapo-parteiro-comum)

Sapillo Pintojo Ibérico
Discoglossus galganoi (Rã-de-focinho-pontiagudo)

Sapo De Espuelas
Pelobates cultripes (Sapo-de-unha-negra)

Sapo Común
Bufo bufo (Sapo-comum)

Sapo Corredor
Epidalea calamita (Sapo-corredor)

Ranita De San Antón
Hyla molleri (Rela)

Rana Patilarga
Rana iberica (Rã-ibérica)

Rana Común
Pelophylax perezi (Rã verde)

domingo, 13 de março de 2016

Chasco-preto (Oenanthe leucura) o pedreiro


Macho de chasco-preto

O chasco-preto (Oenanthe leucura) é um passeriforme da família dos Turdidae raro em Portugal e caracteriza-se pela plumagem preta, que contrasta distintivamente com o branco em forma de “T” que apresenta na cauda. Quando observados mais de perto, o macho é facilmente distinguível da fêmea por esta apresentar um padrão menos negro por vezes até castanho-escuro. Não apresentam variação sazonal de plumagem. Contrariamente aos outros chascos que ocorrem em Portugal, o chasco-preto é residente e consequentemente observável no inverno.
 Fêmea de chasco-preto

Macho de chasco-preto

Embora seja uma espécie que não apresenta apetência por zonas humanizadas, uma das poucas populações existentes em Portugal (a do Douro Vinhateiro) está estritamente associadas às paisagens humanizadas que são a cultura de vinha, os seus muros e socalcos que datam na sua maioria do seculo XVIII ou do final do seculo XIX, após o ataque da filoxera.
Habitat de chasco-preto no Douro Vinhateiro

O chasco-preto reproduz-se no Noroeste Africano, Extremo sul da França, Espanha e Portugal, sempre associado a zonas áridas e pedregosas. De facto as pedras, nesta espécie desempenham um papel fulcral na sua reprodução. Contrariamente a outros machos de aves que seduzem a fêmea para acasalar com exibições ou decorações de ninhos, o chasco-preto, após o acasalamento exibe-se sexualmente pelo depósito de pedras junto aos possíveis locais de nidificação, e não estamos a falar em duas sou três pedritas…
 Macho de chasco-preto

 Macho de chasco-preto

Aproximadamente duas semanas antes do início da postura, os machos (de 35-40 gramas) começam a recolher pedras do chão e voar com eles para juntos possíveis locais de nidificação (que será escolhido pela fêmea). Neste espaço de tempo (2 semanas), em média levam 277 pedras que no seu conjunto podem atingir mais de 2Kg. Por ser um comportamento pós-acasalamento o seu papel ainda não é muito bem claro, mas algumas hipóteses são levantadas, as mais plausíveis são:
Termorregulação – esta hipótese tem como base de sustentação que as pedras podem reduzir as flutuações térmicas e assim reduzir os custos de incubação;
Exibição sexual – esta hipótese tem como base de sustentação que este comportamento é a forma de mostrar à fêmea o esforço que o macho desempenhará na criação da sua prole.
  Macho de chasco-preto

 Macho de chasco-preto

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Bicha-cadela, um insecto a conhecer



Pode não ser o insecto mais interessante e pode mesmo inspirar algum receio mas, bem vistas as coisas, há sempre algo a aprender.
Um destes dias de campo, comecei a ver, um pouco ao longe, sobre uns xistos alguns insectos que levantavam voo. Dava a ideia de serem formigas de asa a dispersar mas, pareciam um pouco mais “gordas”… Quando me aproximei vi que era uma grande quantidade de bichas-cadela Forficula auricularia que, aproveitando um pouco o calor do sol, desdobravam as suas asas (que eu nem sabia que tinham) e tentavam levantar voo. Fiquei com alguma curiosidade sobre este insecto e fui procurar mais informação.

Grupo de bichas-cadela a apanhar sol
 
Este insecto é da ordem dermaptera termo que provém do Grego e junta duas palavras: pele (derma) e asas (pteron), fazendo referência às asas membranosas destes insectos deste grupo sempre protegidas por um segundo par de asas rígidas, os élitros. Outra importante característica deste grupo é a alteração dos cercus que, neste grupo, assumem a forma de pinças ou fórceps (tendencialmente mais curvos e fortes nos machos e mais esguios e rectos nas fêmeas).

Algumas bichas-cadela a desdobrar as asas


As Bichas-cadela são insectos omnívoros que se podem alimentar de matéria vegetal em decomposição ou de outros insectos como os afídios ou os pulgões. Por este facto podem ser importantes auxiliaries da agricultura biológica embora alguns autores as considerem prejudiciais por também se alimentarem de algumas plantas agrícolas. 
 
Um indivíduo a desdobrar as asas com o auxílio das pinças

Quanto ao seu ciclo de vida, esta espécie apresenta um desenvolvimento com metamorfoses incompletas (hemimetabólico) podendo passar por 4 a 6 instares até atingir a sua forma adulta. A fêmea pode pôr entre 20 a 80 ovos numa câmara sob a manta folhosa ou sobre o solo, que guarda, cuida e limpa impedindo o aparecimento de fungos até à eclosão.  

Pormenor da asa de voo de Forficula auricularia

Apesar das lendas e rumores de que estes insectos são venenosos e de que podem entrar para os nossos ouvidos, estes animais são inofensivos podendo apenas beliscar-nos levemente com as suas pinças se se sentirem ameaçadas.

Um indivíduo em voo

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Morcegos, pinguins e concertos de rock

O morcego-de-peluche (Miniopterus schreibersii) é a espécie europeia de morcegos que forma colónias mais compactas, uma colónia com um metro quadrado pode ter 2000 indivíduos!
Colónia de Miniopterus schreibersii

Nas grandes colónias de hibernação de morcego-de-peluche, os indivíduos que se encontram no centro da colónia tem temperaturas corporais mais elevadas do que os indivíduos da periferia, que em alguns caso pode atingir diferenças de 5ºC. De modo a poderem controlar a sua temperatura corporal os indivíduos vão-se movendo do centro da colónia para a periferia, com a finalidade de baixarem as temperatura corporal e poderem continuar em torpor. Estas movimentações dentro das colónias/aglomerados de indivíduos não é único no mundo animal, os pinguins também o fazem, mas com propósitos contrários, movem-se da periferia para o interior para se resguardarem do frio e manterem a temperatura corporal.
Colónia de pinguim-imperador (Aptenodytes forsteri)

A compactação de Miniopterus schreibersii nas colónias é de tal ordem que a melhor forma de se movimentar é mover-se por cima da colónia, na ausência de locais de suspensão, que normalmente são as rugosidade e reentrâncias do teto do abrigo, esta espécie, além de usar os polegares e patas para se agarrar aos outros morcegos também usa a boca, mordendo os seus companheiros e o mais extraordinário é que os outros morcegos (aqueles que estão parados) também o ajudam, mordendo-o (agarrando-o) também, evitando assim que caia ao chão.
Morcego-de-peluche, abocanhando uma morcego que se move para a perifiria da colónia. Foto de © Luís Braz

Cada vez que vejo este comportamento faz-me lembrar os moches dos concertos de rock… mas de patas para o ar.
Moche de James Blunt. Foto de © Chris Jackson

sábado, 9 de janeiro de 2016

Andorinhão-preto porque são especiais?

Foto de: Keta (Own work), via Wikimedia Commons

Devido ao seu comportamento, anatomia e fisiologia, o andorinhão-preto (Apus apus) é uma das espécies mais interessantes e incomuns da nossa avifauna. Esta ave em condições climatéricas extrema de frio e na falta de recursos alimentares têm a capacidade de entrar em torpor (um estado fisiológico parecido ao da hibernação só que de curta duração), os adultos podem entrar em torpor durante dois dias e os juvenis até cinco.
O Andorinhão-preto, é umas das aves mais rápidas da Europa pode atingir os 220km/h, com a particularidade de que as velocidades máximas são atingidas quando voam em colónia sobre os locais de criação. Apenas ultrapassado pelo falção-peregrino, adorinhão-real e o subbuteo, que podem atingir os 350, 250 e 240 Km/h, respectivamente.
Outras particularidade extraordinária dos Andorinhões é que conseguem voar durante longos períodos de tempo sem pousar. A capacidade de voo destas aves é de tal ordem desenvolvida que são capazes de comer, beber, acasalar e até mesmo dormir, sim estas aves dormem durante o voo elevam-se até aos 2000 metros de altitude e dormem enquanto planam. Esta aves apenas pousam para criar, e como criam apenas ao 3º ou 4º ano de idade, durante este período de tempo apenas pousam alguas vezes durante poucos  segundos para inspeccionar possíveis locais para nidificação.
A localização dos ninhos dos andorinhões é criteriosamente escolhida, preferem locais altos tendencialmente em edifícios, com pelo menos 3-4 metros de altura, onde cria debaixo das telhas, nas calhas ou em buracos de paredes. Como os seus pés não estão adaptados para caminhar têm que ter espaço aberto na frente dos seus ninhos, para poderem entrar nos seus ninhos, pousamos na sua entrada ou voando directamente para dentro dos buracos.
Muitas vezes confundidos, os andorinhões não são da mesma família das andorinhas, pois os andorinhões pertencem à família dos Apodidae e as andorinhas à Hirundinidae. Sendo que os seus parentes mais próximos são os colibris (beija-flores).
Apenas os andorinhões adultos e saudáveis é que são capazes de levantar voo do chão, visto que as suas longas asas e patas curtas, limitam estes simples ato para a maioria das aves. Tal como em muitas espécies de aves, a queda de juvenis dos ninhos é frequente, na impossibilidade de recolocar os juvenis nos seus ninhos, devem ser entregues em locais apropriados (SPENA; ICNF ou centros de recuperação), visto que têm uma dieta muito especializadas, baseada em insectos voadores, caso sejam alimentados com outro tipo de alimento as suas penas poderão crescer deformadas ou acabar por caírem após alguma semanas.
Foto de: Andreia Dias. Andorinhão juvenil recuperado