domingo, 26 de agosto de 2012

O lobo-ibérico (Canis lupus signatus)


Pegada de um lobo-ibérico adulto.
Morfologia
O lobo-ibérico (Canis lupus signatus) assemelha-se em tamanho a um cão pastor alemão, tendo no entanto algumas características particulares que o distiguem deste e de outros cães. Logo à primeira vista sobressai a sua cabeça volumosa e alongada, quando comparada com o resto do corpo. Isto deve-se sobretudo a existência de músculos bastante desenvolvidos a ligarem o crânio e a mandíbula, que permitem a este carnívoro aplicar dentadas poderosas para capturar as suas presas. Possuem orelhas triangulares pontiagudas, relativamente pequenas. Os seus olhos são claros, côr de âmbar ou côr de mel (amarelados) e estão inseridos de forma oblíqua em relação ao seu focinho forte.
Os membros do lobo são largos e musculados e as patas maiores do que as de qualquer cão, mesmo os grandes. Os membros dianteiros são ligeiramente mais altos do que os traseiros, o que confere ao lobo um aspecto muito característico. A cauda é relativamente grande e felpuda, e encontra-se normalmente caída entre as pernas traseiras durante as deslocações do animal. A coloração do lobo-ibérico é um cinzento-acastanhado, sendo mais escura no dorso e mais clara no ventre. Os seus membros dianteiros possuem uma mancha negra longitudinal na região “das canelas”. A zona da face que envolve a boca é branca e estende-se até à garganta. A cauda também é acizentada como o dorso e termina com a ponta negra. Um macho adulto de lobo-ibérico pesa em média cerca de 35kg, havendo no entanto animais que chegam aos 45kg. As fêmeas são um pouco mais pequenas e pesam em média cerca de 30kg. Toda a massa muscular e estrutura do corpo de um lobo são reveladoras de grande força e resistência física, o que lhe permite efectuar longas distâncias durante vários dias consecutivos. Podem percorrer mais de 30 quilómetros em 24 horas, mesmo em zonas de montanha.

Alimentação
O lobo é um animal carnívoro que baseia essencialmente a sua alimentação em animais de médio e grande porte. Os ungulados selvagens são as presas preferenciais do lobo em todo o mundo, estando incluídos nestes os bisontes, os alces, os caribous, os veados, entre outros. Em Portugal, os ungulados selvagens de que se alimenta o lobo são basicamente três: o veado, o corço e o javali. Face da escassez de presas naturais, a alimentação do lobo-ibérico na maior parte do no nosso país basea-se em animais domésticos. A cabra e a ovelha são os animais mais predados pelo lobo, embora também se possam alimentar casualmente de outros animais, tais como bovinos e asininos. O lobo é também um animal oportunista, por isso outros animais podem fazer parte da sua dieta alimentar, como é o caso dos cães que ficam abandonados nas serras, de raposas, de coelhos ou até de aves.
 Aspecto mais comum de um dejecto de lobo-ibérico.

A vida em alcateia
Os lobos são animais sociais, que vivem em grupos familiares organizados em alcateias. As alcateias variam no número de animais, podendo ir normalmente de 2 a 10 lobos na Península Ibérica. No entanto, se o alimento disponível for em grande quantidade, existem alcateias que podem chegar aos 15 indivíduos. Uma alcateia é constituída por um casal reprodutor e pelos seus descendentes, tal qual uma família humana. Aos animais reprodutores dá-se o nome de macho alfa (α) e fêmea alfa (α) e são estes os animais dominantes na alcateia. Os restantes lobos são normalmente filhos do par α de anos anteriores que vão ficando na alcateia. Para além destes animais adultos, existem os lobachos que nascem no próprio ano. Os lobos dominantes são os que decidem as ações vitais do grupo, tais como as zonas onde caçar, as zonas de descanso ou o local de criação. Os restantes lobos, por serem novos e estarem ainda em fase de aprendizagem, ajudam os progenitores na caça, na marcação do território e na criação dos lobachos. Cada alcateia tem um território bem definido onde vive, caça e se reproduz, defendendo-o de outros lobos que queiram entrar e usufruir desse território. Quando os lobos atingem os 2-3 anos de idade têm tendência para dispersarem da alcateia onde vivem e irem à procura de novos territórios e de um par para que possam eles próprios formarem a sua própria alcateia. 
 Cria de lobo-ibérico com apenas alguns meses resgatado de um pastor que o mantinha em cativeiro no início da década 90.

Indícios de presença
Não é normal observar-se um lobo com facilidade quando se passeia pelo campo, mesmo em zonas em que é conhecida a sua presença habitual. Estes animais passam a maior parte do dia descansando escondidos em zonas de vegetação densa ou de difícil acesso e só se tornam mais ativos quando chega o pôr-do-sol. É durante a noite que os lobos se aventuram mais em terrenos abertos, percorrendo vários quilómetros nas serras em busca de alimento ou patrulhando o seu território. Contudo, mesmo sem os ver, é possível sabermos da existência deles numa determinada zona se prestarmos atenção às pistas que eles vão deixando para trás. Os indícios mais visíveis são sem dúvida os dejetos. Uma vez que os sucos gástricos existentes no interior do aparelho digestivo destes carnívoros são bastante poderosos, quase tudo é digerido, sobrando normalmente apenas os pêlos dos animais que eles comeram, alguns fragmentos de ossos e algumas ervas que eles usam como purgante. Assim, o aspeto de um dejeto fresco de lobo assemelha-se bastante a um de cão, mas possui no seu interior grandes quantidades de pêlo. À medida que o tempo vai passando e que o dejecto seca ou que é lavado pelas chuvas, o especto de um dejeto de lobo resume-se a um novêlo de pêlos. Os lobos usam muitas vezes os dejetos como forma de marcação do território, para que saibam da existência uns dos outros. Por isso é normal encontrarem-se dejetos em zonas que sejam bastante visíveis (cruzamentos de caminhos, em cima de tufos de ervas ou no meio dos caminhos se estes forem bem abertos). Outro indício são as pégadas, não obstante a possibilidade de confusão com as pégadas de cães grandes é muito maior do que em relação aos dejetos. Em teoria, as pégadas de um lobo adulto são maiores do que a as pégadas de cães de grande porte. Possuem uma almofada traseira mais larga do que a dos cães e a pegada no seu todo costuma ser alongada (mais comprida do que larga), enquanto que a dos cães costuma ser mais arredondada. 
 Aspecto de um dejecto de lobo-ibérico com ervas 

Aspecto de um dejecto de lobo-ibérico com um par de horas.

Reprodução
Os lobos atingem a maturidade sexual por volta dos cinco anos de idade, mas desde os dois anos que podem reproduzir-se. Normalmente só uma fêmea por alcateia procria (a fêmea alfa), e isto acontece somente uma vez por ano, por alturas da Primavera. No final do Inverno, as fêmeas começam a produzir uns compostos químicos (ferormonas) que indicam aos machos que estão prontas para acasalar. Após um perido de cortejamento o casal afasta-se um pouco do resto da alcateia para procederem à cópula, que só se pode realizar num curto período de cerca de 20 dias. A gestação é de dois meses, durante a maioria dos quais a loba continua a acompanhar o resto do grupo nas suas atividades diárias. Mais perto da altura do parto, a loba deixa a alcateia e procura um local onde possa parir, normalmente escava uma pequena cova em zonas de vegetação muito densa ou aproveita-se de antigas tocas de raposas ou texugos. As lobas dão à luz entre 3 e 6 lobachos durante o mês de Maio. Os locais de criação encontram-se sempre perto de zonas com água, sejam ribeiros, riachos ou nascentes, e mantêm-se de ano para ano se não houverem perturbações. Os lobachos quando nascem são completamente negros, limitando-se a dormir e a alimentarem-se de leite da sua. Nos primeiros tempos de vida a loba não saí do local de criação (para proteção e aquecimento dos lobachos) e são os outros elementos da alcateia que caçam e trazem alimento para a loba alfa. Com um mês de idade os lobachos começam as primeiras explorações em volta do local onde nasceram, deixando de estarem tão dependentes dos cuidados maternais. Cada vez mais vão-se alimentando de comida sólida trazida pelos adultos e o seu crescimento é rápido. Exploram áreas cada vez mais afastadas, têm brincadeiras mais elaboradas com os outros e vão treinando outras formas de comunicação, como por exemplo os uivos. Por volta de Novembro, os lobachos são quase do tamanho dos adultos e deixam o local de criação, juntando-se ao resto da alcateia nos movimentos por todo o seu território, iniciando assim a sua aprendizagem na arte da caça e da sobrevivência.

Onde vive o lobo em Portugal
No início do século XX o lobo ocupava ainda a quase totalidade do território português, distribuindo-se desde o Minho e Trás-os-Montes até às serras do Algarve. Com a crescente humanização e desenvolvimento do país este carnívoro foi perdendo habitat para viver, sendo também vítima de uma grande perseguição por parte do Homem. Hoje em dia ele sobrevive principalmente nas zonas mais montanhosas e de difícil acesso aos humanos. Em Portugal, o lobo divide-se em 2 núcleos aparentemente separados; um maior a norte do rio Douro e outro mais pequeno a sul deste rio. A norte do rio Douro este animal habita a maioria das zonas de serrania. Podemos encontrá-lo desde a serra de Arga no distrito de Viana do Castelo, passando pelas serras da Peneda, Soajo e Gerês na zona do Parque Nacional da Peneda-Gerês, continuando por quase todo o distrito de Vila Real onde se destacam as serras do Alvão, Marão, Falperra e Padrela. Mais para Este, no distrito de Bragança, ele está presente nas serras de Montesinho, Nogueira e Coroa, estendendo-se até às zonas de Miranda do Douro e Mogadouro e ao vale do rio Sabor. A sul do Douro esta espécie distribui-se pelas serras de Montemuro, Lapa, Arada e Leomil e pelas zonas de Figueira de Castelo Rodrigo, Pinhel e Almeida.
A população portuguesa de lobo-ibérico não está isolada da população espanhola, existindo um contínuo de alcateias, especialmente entre as zonas do Parque Nacional da Peneda-Gerês e a província de Ourense e entre o distrito de Bragança e a província de Zamora. Por outro lado, a sul do rio Douro a população portuguesa parece estar isolada do resto da população ibérica, estando assim mais ameaçada a sua conservação para o futuro.

As principais ameaças
Muito provavelmente a escassez de alimento e em particular as pressas naturais, nomeadamente de corço e veado constitui a maior ameaça do lobo, que faz com que o lobo, na maioria da sua área de distribuição em Portugal, dependa sobretudo dos animais domésticos para se alimentar, provocando assim prejuízos na pecuária. Por outro lado, essa alteração na ecologia da espécie faz depender a sua conservação da manutenção da pecuária extensiva, o que torna particularmente preocupante tendo em conta a regressão da criação de gado em regime extensivo, que se tem vindo a verificar em algumas áreas do país. O lobo é um predador e, como todos os grandes predadores, necessita de amplas áreas onde possa viver, caçar e reproduzir-se. Por todo o mundo os grandes espaços selvagens são cada vez menos e Portugal não foge à regra. O desenvolvimento e as construções humanas retiram cada vez mais espaço livre disponível para o lobo e tornam acessíveis a pessoas e veículos, zonas que antigamente eram praticamente isoladas. Os fogos são um problema para o lobo especialmente porque vão perdendo zonas de refúgio de igual modo com as serras cada vez mais despidas, também as presas selvagens do lobo perdem habitat para viverem, caso dos corços e dos javalis, que necessitam de zonas florestadas para se refugiarem, havendo assim menos disponibilidade alimentar para este carnívoro. A caça (principalmente a ilegal) sempre foi um grande problema para a conservação do lobo. Hoje em dia, não sendo permitida a caça legal deste carnívoro, o furtivismo assume um papel relevante no número de lobos mortos de que se tem conhecimento. Existe um elevado número de lobos que aparecem mortos em armadilhas (laços) que normalmente são dirigidos para capturar ungulados mas onde é frequente caírem outros animais.
O ódio com que as pessoas ficam dos lobos por eles matarem o gado, especialmente pastores ou criadores de gado e não serem devidamente ressarcidos faz com que usem o veneno como método para tentarem exterminar este predador. O veneno é colocado em iscos de carne ou em animais mortos depositados na serra. Estes venenos são extremamente poderosos e não são seletivos, por isso todos os animais que lá vão alimentarem-se morrem. Isto torna-se um perigo, não só para o lobo, como para outras espécies como diversas águias, corvos, gralhas, raposas ou outros pequenos predadores. 
Dois de três subadultos que constituem esta alcateia

Esta foto (gentilmente cedida pelo meu amigo Eric Janssen) foi tirada no dia 2 de Agosto ao final da tarde enquanto fazia-mos uma espera aos lobos durante um Campo de Trabalho Científico.

Nota final
 “In spite of the present human pressure, we conclude that the most important factor for wolf presence in this region is the availability of prey. Human presence has some negative impact on wolves and might even prevent the settlement of wolves in a given area. But this is likely to occur only in regions with uncontrolled killing, particularly high human activities, insufficient hiding conditions (forest and shrub cover) and low food availability. The behavioral plasticity of wolves is the main reason for their survival, despite persecution throughout the centuries in Europe, as well as for their recent range expansion.” (Eggermann et al., 2011)

sábado, 11 de agosto de 2012

De volta às capturas!


Depois de um período sem capturar em Portugal devido ao cumprimento da cláusula imposta pelo ICNB na emissão da licença de captura, que proíbe as capturas entre o período compreendido entre 1 de Junho e 20 de Julho, período coincidente com o período de nascimento e de dependência das crias (ver ultimo parágrafo deste post) e volvido da Galiza onde participei num Campo de Trabalho Científico organizado pela Sociedade de Mamalogia Holandesas e pela Drosera (Associação de Investigação e Conservação do Meio Natural Galego), voltei às sessões de capturas em território Português.

Desta vez decidi rumar até terras de Basto, mais concretamente a Cabeceiras de Basto!

Embora a envolvente não fosse promissora (monocultura de pinheiro-bravo jovem), o ponto de água situado a 760 m de altitude era perfeito para capturar morcegos, pois apresentava as características ótimas (VER ESTE POST).

Após a primeira hora algo sossegada, foi possível capturar quatros espécies diferentes (Plecotus auritus, Eptesicus serotinus, Myotis escalerai e Pipistrellus kuhlii) de um total de 16 indivíduos (mais duas recapturas).







Neste momento as capturas em Portugal estão interditas entre 1 de Junho e 20 de Julho de modo a salvaguardar o período mais sensível da reprodução dos morcegos, contudo e embora este período seja bastante alargado, em Espanha (Galiza a 100km de Portuga) no final de Julho e início de Agosto ainda estavam fêmeas prenhes e os Rhinolophus hipposideros ainda estavam com as crias penduradas no ventre. Aqui em Portugal (Norte), ontem apanhei um Eptesicus serotinus prenhe (que libertei de imediato). Tudo isto para dizer que quando impomos períodos em fenómenos ecológicos que depende fortemente do meio e das condições ambientais podemos ter situações como estas. Estamos em pleno Agosto a ainda temos morcegos em reprodução (pelo menos no Norte), muito provavelmente pelas chuvas e frio tardio que se fez sentir este ano!

domingo, 22 de julho de 2012

Otus scops


Otus scops
Taxonomia:
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Strigiformes
Família: Strigidae
Género: Otus
Espécie: Otus scops
Nome comum: Mocho-d’orelhas

Descrição: O mocho-d’orelhas é, mais pequena ave de rapina que existe em Portugal. Os indivíduos desta espécie podem atingir os escassos 20 cm de comprimento e 100 gramas de peso. Apresenta plumagem uniforme, de cor variável em tons de castanho-acinzentado, que lhe confere uma excelente camuflagem no seu habitat natural, em especial nos troncos das árvores. Os pequenos “tufos” de penas que apresenta na sua cabeça, fazem lembrar umas orelhas, conferindo-lhe o seu nome comum.

Espécies similares: Embora visualmente seja fácil de identificar, o seu canto monótono, pode ser confundido com o canto do Sapo-parteiro (Alytes). 

Distribuição: A sua distribuição enquanto nidificante estende-se de modo contínuo por grande parte do Paleárctico, desde a Península Ibérica e Marrocos até ao Irão, norte do Paquistão e Índia e Noroeste da China, por sul, e Ásia Central até ao Lago Baical, por norte. Latitudinalmente, vai da França, Suíça, Áustria, Hungria, República Checa, Ucrânia e metade sul da Rússia europeia, até ao noroeste africano, todas as ilhas do Mediterrâneo, Próximo Oriente, e sul do Paquistão e noroeste da Índia. As populações mais meridionais da sua área de distribuição são completamente migradoras, invernando desde o Mediterrâneo até ao Equador. As do sul são parcialmente migradoras ou mesmo residentes, embora neste caso os efetivos sejam notoriamente mais reduzidos no Inverno, como na Península Ibérica, conhecendo-se populações invernantes em Espanha, Sul de Itália e Grécia e nas ilhas mediterrânicas das Baleares, Córsega e Sicília. Em Portugal, a espécie surge praticamente em todo o território nacional, tendo uma distribuição mais contínua nas Beiras interiores, Trás-os-Montes e Minho.
 Otus scops

Habitat: O habitat de Otus scops em Portugal é diverso e é constituído por bosques e bosquetes pouco densos, desde manchas de carvalho-negral Quercus pyrenaica, a soutos (Castanea sativa) e matas ripícolas, em regra na proximidade de áreas abertas, e ainda parques e jardins urbanos (exemplar fotografado neste post) ou quintas. No nordeste algarvio é observado em plantações horto-frutícolas, montados de sobro e azinho pouco densos e vegetação ripícola desenvolvida. 
 
Biologia: Sendo preferencialmente insectívoro, Otus scops está associado a áreas semi-abertas compostas por habitats ricos em grandes insetos, e zonas arbóreas que lhe facultam pousos discretos e cavidades para nidificar. A dieta alimentar desta espécie é constituída preferencialmente por grandes insetos, aracnídeos, micromamíferos, pequenas aves, anfíbios e répteis, que caça predominantemente à noite, contudo podem esporadicamente também caçar durante o dia. Quanto á reprodução, a época de reprodução está compreendida entre o mês de Maio e meados de Julho, a incubação é de 4-5 ovos é realizada apenas pela fêmea durante 24-25 dias, sendo que começa logo após a postura do primeiro ovo. Nidifica em cavidades de árvores maduras, buracos de paredes ou telhados de edifícios e, por vezes, em antigos ninhos de outras espécies, podendo usar caixas-ninho, onde deposita 3-4 ovos que são incubados durante 24-29 dias. As crias podem ser vistas fora do ninho, estando aptas a dar os primeiros voos poucos dias depois, mas apenas se tornam independentes dos progenitores após de 5ª semana.
No nosso País é uma espécie migradora, embora algo fiéis aos seus territórios de ano para ano, tendo em conta a disponibilidade de alimento e de locais de ninho podem mudar o seu território. Em Portugal não se conhecem registos efetuados em pleno Inverno, ao contrário do que acontece em Espanha. A espécie é claramente mais abundante na metade norte do país, apesar de também nidificar no Sul, sendo comum e por vezes mesmo abundante nas regiões da Beira interior e em Trás-os-Montes.
 Otus scops

Estatuto de conservação: De acordo como o Livro Vermelho de Vertebrados de Portugal (LVVP), o mocho-d’orelhas está classificado como DD - “Informação Insuficiente”, não existindo informação adequada para avaliar o risco de extinção. Com efeito, não são conhecidos parâmetros básicos referentes a esta população, como tamanho e tendências.

Conservação e ameaças: A conservação desta espécie passa por dinamização de campanhas de sensibilização ambiental, conservação do seu habitat, aplicação de boas prática agrícolas, reforço da fiscalização e estudos científicos para melhor conhecer os seus padrões bio-ecológicos.
As principais ameaças desta espécie são, a alteração ou degradação do habitat e a utilização dos pesticidas, morte por abate, a perda de árvores adequadas à nidificação, o roubo de ninhos e a colisão com automóveis.

Curiosidades: O assobio monossilábico do mocho-d'orelhas, repetido de três em três segundos durante horas a fio, por vezes em dueto, é um dos sons mais característicos da Primavera transmontana e é generante a melhor forma de localizar esta espécie.
 

sábado, 30 de junho de 2012

Complexo nattereri


 Myotis escalerai
 
Em 1914, no libro “fauna ibérica - Mamíferos”, Ángel Cabrera escreveu “En 1904, observando que todos los ejemplares españoles que me fué dado examinar tenían el patagio inserto junto al tobillo, y no en la base de los dedos como se lee en todas las descripciones del Myotis Nattereri, me atreví á considerarlos como una especie diferente (Myotis Escalerai).”
De facto, após um século da descrição original de Myotis escalerai por Ángel Cabrera, a genética consegui mostrar o que as características morfológicas pareciam ter escondido. As primeiras análises genéticas confirmaram a presença na Península Ibérica de um grupo de Myotis nattereri muito diferentes dos observados no Centro-Norte da Europa, provavelmente correspondente aos Myotis escalerai descritos por Ángel Cabrera em 1904, sendo assim possível reconhecer cientificamente esta espécie.
 Myotis escalerai
 
A genética revelou ainda uma segunda linhagem existente no Norte de Espanha desconhecida até ao momento, esta linhagem diferencia-se do Myotis nattereri e também do Myotis escalerai. Como a todos os desconhecidos foi dado um nome fictício e prático. Myotis spA. Contudo para uma maior complicação, uma terceira linhagem aparecia em Marrocos (Myotis spB).
 Myotis escalerai
 
Desde então tem-se trabalhado no sentido de recolher dados suficientes para esclarecer a diferenciação genética e morfológicas destas 4 espécies. Para duas destas espécies já existe uma descrição taxonómica.
Myotis nattereri foi descrito em 1817 por Kuhl com exemplares procedentes da Alemanha Central. Esta espécie está amplamente distribuída na Europa Central, Setentrional e oriental, contudo até ao momento não foi encontrada na Península Italiana ou Ibérica. 
 Myotis escalerai
 
A descrição do Myotis escalerai feita por Ángel Cabrera em 1904 é válida, já que os exemplares estudados procediam de uma área (Valência) onde apenas se encontra esta espécie. O nome desta espécie pôde ser então resgatado, apos ter sido considerada sinónimo de Myotis nattereri por muitos anos. Contudo as suas características morfológicas, ecológicas e a sua distribuição necessitam de ser estuda á luz dos resultados genéticos.
Diferente é a situação das novas linhagens.

O Myotis spA é a segunda linhagem encontrada na Península Ibérica e o único presente na Península Italiana. Geneticamente é uma espécie mais próxima do Myotis nattereri
O Myotis spB é a única linhagem encontrada na região de Magreb. Genética e morfologicamente é mais próximo do Myotis escalerai. O conhecimento da sua distribuição e estado de conservação é escasso tendo sido considerada uma espécie rara.
Assim, na Península Ibérica ocorrem exemplares de duas das quatro linhagens do complexo nattereri. O Myotis escalerai que está presente em toda a península, enquanto que o Myotis spA está limitado a áreas Setentrionais até ao Norte da Extremadura pelo Ocidente até á Catalunha na costa Oriental.
Além das evidências ecológicas que parecem ter, sendo que o Myotis escalerai é mais frequente em zonas de cotas mais baixas, enquanto que o Myotis spA, ocorre em zonas de maior altitude. Alguns caracteres morfológicos também permitem distinguir os dois principais grupos (Myotis nattereri/Myotis spA Vs Myotis escalerai/Myotis spB). A característica mais evidente e amplamente comprovada, é a diferença na franja de pelos na margem do uropatágio, a franja ventral interna nos Myotis escalerai e myotis spB apresenta pelos mais longos, mais densos e direcionados para o corpo do animal. Outra característica é o ângulo de inserção do patágio na pata.
 Myotis escalerai

Post escrito com base no artigo:
Saliciini I., Ibáñez C., Juste J. (2012). El complejo Myotis nattereri en Iberia: una larga historia. Barbastella 5 (1) 3-7.

domingo, 17 de junho de 2012

Comportamento colonial do Circus pygargus


O Tartaranhão-caçador pode nidificar solitariamente mas na maioria dos casos, os ninhos estão relativamente próximos, constituindo assim uma colónia ou núcleo de nidificação.
 Colónia de nidificação no planalto do Vilarelho (Alijó)

Deixo aqui o resumo do relatório final de estágio do João Gaiola e para quem tiver curiosidade em ler o relatório completo pode descarrega-lo AQUI
“Em Portugal e segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados, a espécie Tartaranhão-caçador Circus pygargus (L.) é considerada como “Em Perigo” e não existem valores concretos do efectivo populacional em Portugal. O presente estudo surge na perspectiva de contribuir para a caracterização da biologia e ecologia de uma população que ocorre no nordeste de Portugal.
Este estudo foi realizado no Norte de Portugal, numa área com cerca de 6400 há (8 x 8 km), situada no planalto do Alto de Vilarelho (concelho de Alijó), onde se identificou um núcleo de 17 casais dos quais foram acompanhados 14 casais reprodutores. Este núcleo populacional, com um efectivo considerável, ocupou um território bem definido espacialmente e sobre o qual nunca tinha sido realizado qualquer estudo. A área de matos estudada, onde se estabeleceu a colónia de Tartaranhão-caçador é caracterizada sobretudo pela ocorrência predominante de tojo (Ulex minor e Ulex europaeus). Esta característica destaca-se do resto da área de estudo e parece desempenhar um papel importante para a reprodução da espécie, a avaliar pela concentração de casais reprodutores.
No decorrer do trabalho de campo, foram acompanhadas as fases da postura, incubação, eclosão e 1º voo de um total de 53 ovos postos, só 41 eclodiram e, das crias respectivas, apenas 18 se emanciparam com sucesso. Foram também identificados e caracterizados todos os locais de poiso que teve lugar a recolha de indícios da dieta da espécie (egagrópilas e restos de presas).
Durante a campanha de anilhagem foram marcadas com anilhas metálicas e de cor 14 aves juvenis, permitindo assim o reconhecimento individual de cada juvenil.
No cálculo dos parâmetros reprodutivos da colónia de Tartaranhão-caçador, estimou-se em 3,42 crias por ninho a ninhada média da colónia em estudo. Esta mesma população obteve, em termos de sucesso reprodutivo, uma produtividade de 1,29 crias que se emanciparam por casal, valores que se encontram dentro dos limites obtidos em diversos estudos realizado na Península Ibérica.
Nas conclusões do trabalho são propostas algumas medidas para conservação da espécie e gestão de habitat na área de estudo, bem como algumas linhas de investigação futuras que podem contribuir para um melhor conhecimento do comportamento e dinâmica populacional desta ave, para que, de forma efectiva se possa contribuir para a recuperação do Tartaranhão-caçador a nível local e regional.”

domingo, 3 de junho de 2012

Hypsugo savii


Embora tenha uma distribuição ampla e esteja classificado com Pouco Preocupante (LC) pela UICN, o Morcego-de-savi é uma das espécies existente em Portugal com um conhecimento biológico e ecológico escasso, esta falta de informação e conhecimento sobre as questões bio-ecológicas é generalizado pela sua área de distribuição mundial, devendo-se muito pela sua recente diferenciação morfológica e genética.
 Distribuição mundial do Hypsugo savii

Identificação: Espécie originalmente descrita como pertencer ao género Vespertilio, foi posteriormente incluída no género Pipistrellus devido às suas similitudes morfológicas com as espécies deste género, e finalmente no Hypsugo sp. devido a algumas características bioquímicas, morfológicas, nomeadamente a morfologia do pénis e mais recentemente genéticas, que confirmaram tratar-se de uma espécie do género Hypsugo. Morfologicamente é uma espécie de tamanho pequeno e de coloração muito variável. A maioria dos indivíduos apresenta dorsalmente uma pelagem longa de cor castanho ou preto com as pontas douradas ou amareladas, contrastando coma cor branca ou amarelo esbranquiçado que apresenta na zona ventral. Tem orelhas curtas com um trago muito parecido com as dos géneros Pipistrellus e Eptesicus. As partes desprovidas de pelo (cara, orelhas e membranas alares) são de cor preta. As últimas vértebras sobressaem 4-5mm do uropátagio. O pénis (característica distintiva) é pequeno e alarga na parte distal, apresentando uma curvatura angular reta na parte proximal e distal. 
 
 Aspecto geral do Hypsugo savii (cara e orelhas pretas e pelagem com tonalidade dourada)

Espécies similares: As várias características morfológicas distintivas, permitem a sua perfeita identificação, não passível de ser confundida com outras espécies.

Características distintivas (inserção do uropatágio na base do dedo do pé, ultimas vértebras livre)

Ecolocalização: A ecolocalização desta espécie caracteriza-se por ter uma frequência máxima de energia entre 30-35kHz, pulsos (7-8 pulsos/s) longos de frequência constante ou modulada (aproximadamente 8 ms) e intervalo entre pulsos irregular mas superior a 200 ms, apresenta ainda uma maior amplitude no início do pulso
Distribuição: O Hypsugo savii é uma espécie paleártica, ocorrendo deste as Ilhas Canárias, Cabo Verde, NW de África (Marrocos, Argélia e Tunísia) e Europa até aos Balcãs, Cáucaso, Ásia Central (Casaquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Quirguistão e Tadjiquistão), Médio Oriente (Afeganistão) e Ásia oriental (Norte da Índia e Mianmar). Na Europa, é uma espécie mais ou menos comum nas regiões mediterrânicas e sub-mediterrânicas de Portugal, Espanha e França, ocorrendo de um forma mais esporádica na Suíça, Áustria, Norte da Hungria, assim como no Norte da Crimeia, Bulgária, Republica Checa, Eslováquia, sul da Grécia e nas ilhas mediterrânicas de Chipre e Sardenha. Em Portugal a sua distribuição parece acompanhar as regiões montanhosas do Centro e Norte de Portugal, podendo também ocorrer no Sul mas de um forma mais pontual.
 Distribuição das capturas de Hypsugo savii no Norte e Centro de Portugal

Habitat: Esta espécie pode utilizar áreas deste do nível do mar até aos 3.300m de altitude, preferindo zonas rochosas e/ou montanhosas, contudo pode ainda utilizar uma maior diversidade e habitats, desde vales amplos e sem zonas rochosas a escarpas costeiros e montanhosas, assim como pequenos meios urbanos e habitats constituídos por um mosaico de pastagem, agricultura e matos.
Reprodução: A informação disponível é ainda muito escassa para se poder traçar um perfil reprodutivo. Os poucos registos existem sobre abrigos de criação referem-se a observações realizadas em Itália, onde foram encontradas colónias de criação sob telhas e em juntas de dilatação de edificações.
Alimentação: Caça em voo preferencialmente alto (acima dos 100 m) e em áreas abertas, Lepidópteros, Dípteros, Hemípteros e Neurópteros, podendo mais esporadicamente caçar a baixa altitude (2-3 m).

 Pormenor da cara e orelhas do Hypsugo Savii

Mobilidade: Não existe informação sobre este aspeto biológico, contudo é considerado como espécie sedentária, mas supõem-se que posa realizar deslocações curtas. A distância máxima observada foi de 250 km.
Medidas de conservação: O desconhecimento generalizado da biologia, ecologia e distribuição desta espécie, torna difícil a sua conservação. Deste modo a base de conservação desta espécie deverá assentar num maior conhecimento sobre os aspetos biológicos, ecológicos e de distribuição através da realização de estudos necessários para avaliar tendências e planear medidas efetivas de conservação. De um modo geral as medidas de conservação poderão passar pela proteção de locais propícios ao seu abrigo, o uso racional de pesticidas e de estudos de impacte ambiental e planos de monitorização de grandes infraestruturas (e.g. rodovias, barragens e parque eólicos) devidamente elaborados. Assim como a realização de ações de sensibilização
Dimensões: Os dados de indivíduos capturados no Norte e Centro de Portugal permitiram obter um comprimento médio do antebraço (FA) de 34,35mm e um peso de 7,87g. 
 Aspecto geral do tamanho de um Hypsugo savii

Estatuto de conservação: Esta espécie de acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal é classificada como “Informação insuficiente” (DD), não existindo até à data informação adequada para avaliar corretamente o seu estatuto. Esta espécie encontra-se no Anexo BIV da Diretiva Habitat, sendo de interesse comunitário, cuja conservação exige proteção rigorosa. Encontrando-se ainda incluída nos anexos II da Convenção de Berna e Bona