domingo, 5 de outubro de 2014

Swarming de Myotis bechsteinii no Norte de Portugal



Myotis bechsteinii
 Myotis bechsteinii

Embora seja uma espécie eminentemente florestal e em particular ligada a florestas de folhosas bem desenvolvidas, o facto do Morcego de Bechstein (Myotis bechsteinii) se tratar de uma espécie altamente sedentária com deslocações em torno de 1Km (embora os machos se possam deslocar mais) faz com que esta espécie possa ser encontrada em pequenas bolsas residuais de folhosas no meio de outros habitats (um dos exemplos são as pequenas manchas residuais de carvalhos e castanheiros que existem no meio da exploração de pinheiro, eucaliptos e pseudotsuga da Portucel na Serra da Malcata). De facto as espécies termófilas como o Myotis bechsteinii foram mais abundantes durante o holoceno quando os bosques mistos e temperados abundavam no nosso território, atualmente esta espécies encontra-se em regressão e a sua distribuição está cada vez mais limitada aos habitats residuais desse período.

Myotis bechsteinii
Myotis bechsteinii

Myotis bechsteinii
Myotis bechsteinii

 Myotis bechsteinii
  Myotis bechsteinii


De acordo com o Atlas de Morcegos de Portugal, os registos atuais do Morcego de Bechstein restinguem-se a meia dúzia de quadrículas UTM (10x10kM) e mais 8 registos históricos, pelo que é uma das espécies de morcegos mais raras e com uma população mais fragmentada em Portugal.

 
Mapa de distribuição de  Myotis bechsteinii (fonte: Atlas de Morcegos de Portugal)


Entre o final do Verão e do Outono, a maior parte das nossas espécies de morcegos reúnem-se em abrigos subterrâneos, onde caçam (no interior e no seu entorno), exibem comportamentos de voo particulares, emitem vocalizações de socialização e acasalam. Este fenómeno é designado de swarming (que traduzido à letra significa enxame ou ajuntamento) e cada uma das espécies, entre o final do Verão e do Outono tem o seu período de swarming que pode variar em função da dimensão da população, da espécie e das condições climáticas.

Myotis emarginatus

Pormenor dos epidídimos de um Myotis emarginatus em época de acasalamento

Estes locais de swarming desempenham um papel fulcral na conservação das populações de morcegos já que são locais onde muitas espécies acasalam. Um único sítio swarming pode ser o local de acasalamento de várias espécies diferentes, além de que a congregação de muitos indivíduos da mesma espécie faz com que haja um fluxo genético entre as populações mais isoladas, diminuindo assim a sua endogamia.


Myotis bechsteinii

 Myotis bechsteinii

Por uma questão de proximidade e contenção de custos (em particular quando os gastos saem do nosso bolso), os nossos trabalhos estão muito centrados no Norte de Portugal e de facto a informação que temos recolhido durante os últimos 6 anos já é considerável não só em termos de distribuição de observações, como na identificação de locais importantes para a conservação dos morcegos, como por exemplo este local de swarming de Barbastella barbastellus. Desta vez foi a identificação de um local de swarming de Myotis bechsteinii, M. escalerai e de M. emarginatus.

Myotis escalerai
  Myotis escalerai

Myotis escalerai
 Myotis escalerai

Myotis emarginatus
Myotis emarginatus

Myotis emarginatus

Myotis emarginatus

A proteção eficiente dos morcegos deve incidir sobre todos os refúgios utilizados durante todo o ciclo anual (hibernação, reprodução, migração e acasalamento) e não só sobre os mais convencionais (hibernação e reprodução). Tendo em conta a importância que os locais sawrming representam, seria importante desenvolver esforços para os localizar, identificar e caracterizar de modo a serem devidamente classificados como de Importância Nacional (como já o são os abrigos de criação e hibernação). Acresce o facto, que muitos destes locais são sítios onde ocorrem espécies raras e com estatuto de conservação desfavorável como é o caso do Myotis bechsteinii que está classificado de Em Perigo.

Myotis bechsteinii
 Myotis bechsteinii

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

'Põe ovos', voa e não tem penas....

As Libélulas passam a parte inicial do seu ciclo de vida dentro de água, em diversos habitats aquáticos, por períodos que podem ir de vários meses a alguns anos. Todos os seres vivos com esta estratégia no seu ciclo biológico são denominados Anfíbios, (do grego Amphi = ambos, e Bio = vida, isto é, vivem em ‘ambos os meios’ ou têm uma ‘vida dupla’). A larva muda de pele (exosqueleto) várias vezes para poder crescer e quando atinge o tamanho final, na época favorável (que geralmente corresponde ao início da primavera), deixa da água, faz uma última ‘muda de pele’, expandindo o seu abdómen e as suas asas, assumindo a sua forma adulta definitiva. Este processo é conhecido como emergência.

É durante esta fase de adulto, geralmente denominada como fase de voo que se dá o acasalamento. O macho produz o sémen na extremidade do abdómen e transfere-o para a genitália secundária situada na base do abdómen, através do qual é passado para a fêmea. Os ovos só são fertilizados durante a sua postura, o que possibilita a intervenção de outros machos oportunistas, que poderão copular com a fêmea entretanto e remover o esperma do rival. Isto explica porque na maioria das vezes se podem ver os machos a voar sobre as fêmeas ou mesmo ‘agarrados’ a ela, durante a postura, para a guardar.
As posturas podem ser feitas directamente sobre a superfície da água, no substracto húmido das margens de ambientes aquáticos ou na vegetação aquática. A fêmea coloca assim os ovos que são expelidos pelo ovopositor, órgão situado na extremidade do abdómen.

A Libélua anelada - Cordulegaster boltonii – uma das espécies da fauna portuguesa, ocorre em ribeiras e rios de pequenas dimensões em áreas florestadas.




Cordulegaster boltonii (macho)


A fêmea desta espécie faz as posturas geralmente no substracto das margens dos cursos de água, num característico movimento vertical:

Fêmea registada na zona montante do rio Sabor.

sábado, 6 de setembro de 2014

Dados soltos



Mapa de observações e riqueza por quadricula (10X10Km)
 
O WebSIG do nosso blog tem informação de presença de morcegos para 101 quadrícula (10X10KM), que representa cerca da 10% da totalidade das quadrículas existentes no nosso território Continental. Estes dados resulta da contribuição de registos (observação direta e registos acústicos) quer dos membros deste blog, quer de informação enviada pelos nossos leitores (aos quais aproveitamos para agradecer). A espécie mais observada é o Pipistrellus pipistrellus com presença confirmada em 63 quadrículas, seguida do Pipistrellus kuhlii, Rhinolophus ferrumequinum, Myotis daubentonii e Tadarida teniotis com presença confirmada em mais de 30 quadrículas.
Se tem interesse ou curiosidade em visualizar as observações por espécies, basta selecionarem a espécie através do “scroll” que está de baixo da entrada “Mapa de Observações de Morcegos” na barra lateral deste Blog.

 Número de quadrículas com a presença das diferentes espécies

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Hazlo cuando puedas, que cuando quieras no podrás!



A minha última semana foi passada na companhia dos meus amigos Galegos (Roberto, Zéltia e Ledi), que já andam há mais de dois meses e meio consecutivos a capturar morcegos por Castela e Leão. 

 Roberto, Zéltia e Ledi lavando a loiça

A máxima desta equipa e a primeira coisa que transmitem aos que se juntam a eles (como eu ou os voluntários temporários, que esta semana foram a Sara e a Nerea) é: “dormir, comer y lavarte, hazlo cuando puedas, que cuando quieras no podrás”. O nosso dia-a-dia resumia-se a encontra locais propícios para montar as redes durante o dia e capturar durante a noite, as demais coisas faziam-se quando e onde se podia.

 Jantar nas Arribas do Douro, meia noite!

 Bom dia!

Um dia normal começava com a montagem das rede por volta das 20:30 e a captura prolongava-se até à 1:30 da manhã, depois de desmontar redes o “briefing” entre equipas sobre o resultado das capturas, observações de outros bichos e demais peripécias era sagrado (era sempre um momento de boa disposição), montar tenda e já eram 2:30-3:00 da manhã quando começávamos a dormir (quando a musica das festas das aldeias nos deixavam!).

Um raposinho sem vergonha

 Euplagia quadripunctaria


 Boom de efemerópteros no Rio Douro em Valladolid, um petisco para os morcegos!

Pacifastacus leniusculus

Acordávamos por volta das 10:00-11:00 e o pequeno-almoço era tomado depois da higiene e asseio pessoal que era feito umas vezes em rios (uns mais quente que outros, aí aquele de Gredos…bruuuuuuuuu), fontes, outras vezes na ausência de água era simplesmente adiado para mais tarde! Depois rumávamos para outro local e o almoço era feito entre as 16:00 e 18:00 onde se podia (nas escadas de uma casa desabitada, no passeio de uma estrada, á sombra de uns amieiros junto ao rio…).

 Os meninos a trabalhar!

 E a meninas a supervisionar!

Almoço à sombra de amieiros e freixos

A comunidade de Castela e Leão é a maior Comunidade Autónoma de Espanha e os seus 94.223 km², fazia com que nos tínhamos que deslocar bastante, algumas vezes centenas de km, embora isto fosse um inconveniente, era muito reconfortante ver a diversidade de paisagem que variou entre os azinhais, sobreirais, carvalhais e zimbrais típicos das Arribas do Douro, os castanheiros e carvalhos da Serra da Peña de Francia, as turfeiras da Serra de Gredos e os pinhais de pinheiro-manso do maciço central. Assim como a temperatura (principalmente a noturna) que variou entre os 25 das Arribas do Douro e os 0,5ºC da Serra de Gredos. 

Ao fundo a Serra de Gredos com um nevado (neve que perdura durante o verão)

 1600 metros de altitude, ao fundo o vale a amostrar

15 de Agosto, Serra de Gredos! 

 
 Estava frio mas resistimos!

Durantes esta semana de campo foi possível capturar 15 espécies (Myotis bechsteinii, M. blythii, M. spA, M. escalerai, M. daubentonii, Pipistrellus pipistrellus, P. kuhlii, P. pygmaeus, Hypsugo savii, Nyctalus leisleri, N. lasiopterus, Eptesicus serotinus, Plecotus auritus, P. austriacus, Miniopterus schreibersii) e ainda vimos Rhinolophus hipposideros e ouvimos quase todas as noites Tadarida teniotis.

 Um Pipis com uma coloração atípica!

 Plecotus austriacus

As meninas observando um Miniopterus schreibersii

Um Pipis que teimava em não voar!

Myotis blythii abrigado em uma ponte

Um Pipis a roer a rede!

Myotis bechsteinii

Ups, os teus dentes onde estão?

 Myotis bechsteinii fotogénico
Dedico este post ao Roberto, Zéltia e à Ledi pelo trabalho que têm desenvolvido e pela paixão que têm aos morcegos!