domingo, 27 de julho de 2014

Vouzela terra de gigantes



A visita à zona de Vouzela já andava prometida há um par de anos. E esta semana foram criadas as condições para lá dar um salto e fazer mais uma sessão de capturas de morcegos.
Cheguei ao local por volta das 20:00, montei a tenda onde iria pernoitar, depois 10 minutos para montar uma rede de 5 metros e fecha-la (as libélulas, passeriformes e escaravelhos do final de tarde são chatos de tirar das redes!!!!). Depois de comer qualquer coisa abri a rede por volata das 21:30 e embora a atividade não tenha sido muito elevada comparada com outros locais das mesmas características, foi compensada pela diversidade, e de algumas coisas mais raras. A minha velhinha rede de 5 metros, que me acompanha à cinco anos e com mais buracos que um queijo suíço capturou sete espécies: Barbastella barbastellus, Eptesicus serotinus, Myotis myotis, Myotis escalerai, Plecotus auritus, Nyctalus leisleri e o gigante Nyctalus lasiopterus.
De facto o N. lasiopterus não se captura todos os dias e embora fosse um juvenil deste ano a sua envergadura de quase meio metro metia respeito. O tamanho da pança e as 54 gr de peso indicavam ter tido uma noite bem proveitosa em termos alimentícios, muitos insetos ou um ou outro passeriforme.
Normalmente são as aves noturnas que me fazem companhia durante a noite, desta vez foi um rato-do-campo (Apodemus sylvaticus), que durante a noite não teve descanso em roer bolotas de carvalho.
 Nyctalus leisleri

 Barbastella barbastellus

 Myotis myotis 

 Nyctalus lasiopterus

 Apodemus sylvaticus

terça-feira, 1 de julho de 2014

Síndroma de Nariz Branco (WNS) em Portugal



Resumo
O Pseudogymnoascus destructans é o agente patológico responsável pelo Síndroma de Nariz Branco (SNB), uma doença emergente que afeta os morcegos durante a sua hibernação. Visualmente, o SNB é caracterizado pelo aparecimento de um fungo branco no focinho, orelha e membranas. Este síndroma, tem causado a morte de vários milhões nas zonas desprovidas de pelo. Embora na América do Norte este fungo já tenha causado a morte a vários milhões de morcegos, contrariamente, os morcegos Europeus afetados por este fungo parecem não mostrar evidências significativas de mortalidade. Desde de 2008, na Europa, este fungo já foi detetado em 15 países, contudo nunca foi citado na Península Ibérica. Este estudo descreve um caso de SNB e confirma a presença de Pseudogymnoascus destructans pela primeira vez em de Portugal. O fungo foi isolado a partir de amostras recolhidas em 3 Myotis myotis, esta recolha decorreu durante a monitorização regular de abrigos em época de hibernação no Norte de Portugal. O isolamento do Pseudogymnoascus destructans foi obtido a partir de 3 diferentes partes do corpo (nariz, orelha e asa) dos 3 espécimes. A identificação do fungo isolado, foi baseado na caracterização macro e microscópia das culturas e confirmado através de análises genéticas. Estes novos dados aumentam o conhecimento da distribuição do SNB na Europa, com grande interesse para dispersão e impacto que esta doença pode provocar nas populações de quirópteros. 




Abstract
The psychrophilic fungus Pseudogymnoascus destructans (formerly known as Geomyces destructans) is considered the etiological agent of white-nose disease (WND), an emerging disease which affects bats during their hibernation period. This disease is clinically characterized by the growth of a white fungus on muzzle, ears, and wings’ membranes of affected bats. This infection caused the death of several million bats in North America. Conversely, European bats show no evidence of significant mortality occurrences associated with P. Destructans colonization. This fungus has been isolated from bats in at least 15 European countries since 2008, but was never before reported in the Iberian Peninsula. This study describes the first case report of P. destructans colonization in bats from Portugal. We isolated P. destructans from three hibernating Myotis blythii (lesser mouse-eared bat) with visual signs of P. destructans colonization, during a routine visit to a mine located in the Trás-os-Montes region, Northern Portugal. M. blythii is one of the rarest bat species in Europe, classified as critically endangered in Portugal. P. destructanswas obtained from at least three different parts of the body of each specimen analyzed. The identification of the respective fungal isolates was based on the macroscopic and microscopic characterization of the cultures and confirmed by PCR-based analysis. All nucleotide sequences obtained showed 100 % identity with previous data reported for P. destructans. This new finding improves the current knowledge about the European distribution of P. destructans, which is of great interest for forthcoming studies on the fungus dispersion and impact among bat populations at regional and/or global level.” 

Quem estiver interessado, o link para este e outros artigos estão na secção “artigos científicos” na barra lateral direita.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O exímio voador



O morcego-ferradura pequeno (Rhinolophus hipposideros) é um dos morcegos mais pequenos do mundo, pesando 5 a 9 gramas, com uma envergadura de 20-25 cm e um comprimento corporal de apenas 3-5 cm.
È um exímio voador, provavelmente um dos mais rápidos e ágeis da nossa fauna, apto a voar em espaços muito confinados de apenas alguns cm de largura, é capaz de entrar em casas através das chaminés pelo que é capaz de voar na vertical, esta agilidade é também verificada quando caça, pois fá-lo junto ao solo contornando os arbustos, onde se alimenta de uma das suas presas favoritas, as aranhas que apanha nas teias presas entre os arbustos.
Nestas fotos vemos com a falta de um tábua de um soalho é um local perfeito para eles passarem de um piso para outro.





domingo, 8 de junho de 2014

Myotis daubentonii (morcego-de-água)



Embora seja uma das espécies de quirópteros mais abundante e ubíquas do nosso território Continental, a especialização que o Myotis daubentonii tem em relação à sua alimentação e habitat associado, limita-o espacialmente a cursos e massas de água, sendo que o seu próprio nome comum (morcego-de-água) é bem elucidativo quanto a esta questão.

 Aspeto geral de um Myotis daubentonii

Em 1977 a partir de algumas características encontradas em alguns Myotis daubentonii, foi descrita outra espécie, o Myotis nathalinae. Contudo posteriormente, através de análises morfológicas, bioquímicas e genéticas, verificou-se que estas diferenças careciam de valor taxonómico, pelo que foi considerada apenas uma espécie (Myotis daubentonii) com duas subespécies M. d. daubentonii e M. d. nathalinae, ambas presentes no nosso território.

O morcego-de-água é uma espécie de tamanho pequeno, com coloração dorsal arruivada ou cinzento-escuro (em função da subespécie) e ventral branco sujo. Com orelhas curtas e trago pontiagudo que bem caracteriza o género Myotis. O plagiopatágio insere-se na tíbia ou na base do pé, deixando totalmente livre os membro posteriores.

Promenor da inserção do plagiopatágiona pata

Emite sons de ecolocalização em frequência modulada, com uma frequência inicial entre os 70 e 100 kHz e final entre 25 e 35 kHz, sendo que uma característica desta espécie é emitirem em modulação de amplitude (quando voa sobre água), o qual permite facilmente identificar esta espécie através dos seus registos acústicos.

Chamamento social e modulação de amplitude típico de Myotis daubentonii (registo acústico realizado por Luis Braz)

Em estreita ligação com os cursos e massa de água, caça (isoladamente ou em grupo) habitualmente nestes locais ou próximos dos mesmos, alimentando-se principalmente de dípteros, tricópteros, lepidópteros, coleópteros, efemerópteros e neurópteros. Pode ocupar uma grande diversidade de abrigos, tando na época de hibernação como na estival, nomeadamente buracos de árvores, fendas em diversos tipos de construções ou rochas, sótãos, túneis ou cavidades.

Hibernação de um Myotis daubentonii macho 

A maioria dos acasalamentos dos Myotis daubentonii, ocorre em outubro (VEJA AQUI), a ovulação é realizada após o período de hibernação (durante a primavera) e têm as crias (normalmente a penas uma) durante os meses de junho e julho. A longevidade máxima conhecida nesta espécie é de 28 anos!

As colónias de criação são constituídas por pequenos grupos de fêmeas, que normalmente varia entre 10 e 20, podendo contudo formar pontualmente colónias maiores (na ordem da centena), é uma espécie que tem um segregação sexual bem marcada, os machos na época de criação também forma pequenos grupos que podem rondam a vintena de indivíduos. 



 
Colónia de criação e crias de Myotis daubentonii

Durante a hibernação, esta espécie tanto hiberna isoladamente como em colónia que podem atingir as duas dezenas de indivíduos. Embora seja uma espécie sedentária, pode realizar pequenas migrações que podem ir até aos 250km

 Radioseguimento de Myotis daubentonii