sábado, 3 de maio de 2014

Cobra-lisa-meridional (Coronella girondica)




A cobra-lisa-meridional (Coronella girondica) é um ofídio de pequeno tamanho, cabeça pequena e cauda relativamente curta. Tem o dorso e flancos geralmente de cor pardacenta, com uma linha de manchas transversais pelo dorso, no ventre destacam-se as manchas quadrangulares escuras sobre um fundo claro, formando um axadrezado. Na parte dorsal da cabeça tem uma mancha escura em forma de U. De cada lado da cabeça, tem uma linha escura que atravessa o olho e se prolonga pela placa frontal, onde se unem. 
 



 

A sua distribuição inclui o Nordeste de África e o Sudoeste da Europa (Península Ibérica, França e Itália). Ocupa uma grande variedade de habitats naturais, pelo que pode ser considerada como generalista. No Norte da sua distribuição ocupa principalmente vertentes viradas a Sul e no Sul prefere encostas viradas a Norte. Fundamentalmente saurófaga, as suas presas principais são lagartixas e em menor percentagem, a sua dieta também pode incluir, licranços, ovos de répteis, micromamíferos, crias de aves e artrópodes. Farejadora ativa, durante o crepúsculo procura a suas presas nos refúgios, visto que a maioria das suas presas são diurnas.


Como estratégia antipredatória, exibe mimetismo batesiano (capacidade de imitar outra espécie) com as víboras. Está ativa entre Março e meados de Novembro e o seu ciclo circadiano é preferencialmente crepuscular ou noturno, sendo que é uma espécie tigmotérmica (capacidade de absorver calor de superfícies) com sistema de termorregulação.


A identificação da cobra-lisa-meridional (Coronella girondica) requere algum cuidado visto que pode ser confundida com a sua congénere cobra-lisa-europeia (Coronella austriaca) as principais características que devemos ter em atenção são as seguintes:

  • Escamas supra labiais em contacto com o olho – na girondica são a S4 e S5 e na austriaca são a S3 e S4;
  • Número de escamas pré e pós-oculares - na girondica são duas e uma na austriaca são duas e duas;
  • Escama rostral - na girondica é arredondada e na austriaca é triangular;
  • Manchas escuras nos flancos e topo da cabeça - na girondica inicia-se na última supra labial e vai até ao olho infletindo para as frontais e na austriaca inicia-se na última supra labial e vai até ao orifício nasal;
  • Padrão do ventre - na girondica axadrezado de claro e preto e na austriaca é escuro mais ou menos uniforme.


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Uma bola de espinhos



O ouriço-cacheiro (Erinaceus europaeus) é provavelmente o mamífero mais fácil de identificar, pelo facto de ter a zona dorsal coberta de espinhos (cerca de 6 mil!!!), que não são mais do que simples pêlos modificados. Estes pêlos, bastante aguçados, têm entre 2 a 3 cm. O ouriço-cacheiro é maior insectívoro da nossa fauna, com um comprimento do corpo entre 18 a 20 cm e cerca de 1 kg de peso máximo, sendo o valor mais habitual os 700 g. A sua coloração é parda, mas ou menos escuro, dependendo dos indivíduos, mas o seu ventre é sempre esbranquiçado. 


sábado, 12 de abril de 2014

Pipistrellus pipistrellus Vs Pipistrellus pygmaeus



Umas das espécies de morcegos mais complicadas de distinguir são o Pipistrellus pipistrellus e o Pipistrellus pygmaeus, assim deixo aqui algumas características e imagens que poderão ajudar a distinguir esta duas espécies muito similares.




Pormenor da nervura alar (imagem de ©Dietz & vonHelversen)


 Pormenor da saliência entre as narinas (imagem de ©Dietz & vonHelversen)

 Pormenor da coloração das glândulas salivares (imagem de ©Dietz & vonHelversen)

Pormenor da coloração do penis (imagem de ©Dietz & vonHelversen)

Pormenor da coloração da vagina (imagem de ©Dietz & vonHelversen)

sexta-feira, 28 de março de 2014

Encontros na Serra do Gerês com a Cabra-montês (Capra pyrenaica)


Corria o ano de 1892 quando foi avistada a última Cabra-montês (subespécie Capra pyrenaica lusitanica) na Serra do Gerês, cento e sete anos depois, em Fevereiro de 1999 foi confirmado o regresso desta espécie ao território português. O seu desaparecimento deveu-se muito provavelmente a uma má gestão cinegética e a caça descontrolada acabou por eliminar o efectivo populacional português. Espanha passou então a ter a exclusividade desta espécie, que nos dias que correm ainda é um troféu de caça muito cobiçado. Uns anos mais tarde, o então presidente da república portuguesa Américo Thomaz pediu, sem sucesso, a Franco alguns exemplares criados em cativeiro, para reintrodução em Portugal.

Em 1992 a Junta da Galiza trouxe 4 machos e 8 fêmeas (desta vez da subespécie C. pyrenaica victoriae) da Reserva Nacional de Caça das Batuecas em Salamanca, para reintrodução da espécie no Parque Nacional de Invernadero. Em 1998 dezoito  (5 machos e 11 fêmeas) dos 70 exemplares que constituíam esse grupo foram transferidos para o Parque natural da Baixa Limia – Serra do Xurés, onde foram colocados em Salgueiros, mesmo junto à fronteira com Portugal. Um casal que posteriormente foi transferido para um cercado na Serra de Santa Eufémia, gerou uma cria com sucesso e acabaram por fugir os 3 desse cercado. Foram estes indivíduos que foram vistos em 1999 do lado português. Mais tarde fugiram alguns exemplares do cercado de Salgueiros para a zona de Pitões das Júnias e em 2000 e 2001 os responsáveis pelo parque galego libertaram 25 exemplares na Serra do Xurés, que vieram incrementar a população selvagem.

Em 2008 estimava-se que a população portuguesa contasse com aproximadamente 300 indivíduos e em 2012 rondasse os 450.

Na última incursão à Serra do Gerês tivemos um encontro imediato com um fato de aproximadamente 80 descendentes dos primeiros exemplares a regressar ao nosso país, que saltavam ligeiros e curiosos sobre os cabeços dos maciços graníticos. Nunca tínhamos visto tantos indivíduos num só grupo. Aparentemente esta espécie, classificada como Criticamente em Perigo em Portugal (por se estimar em 2006 que o seu efetivo populacional é inferior a 50 indivíduos), veio para ficar.






Referências:

Cabral, M. J. (coord.), Almeida, J., Almeida P. R., Dellinger, T., Ferrand de Almeida, N., Oliveira, M. E., Palmeirim, J. M., Queiroz, A. I., Rogado, L., Santos-Reis, M. (Eds) (2006). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza. Lisboa. 660pp.



sexta-feira, 21 de março de 2014

Epidalea calamita (sapo-corredor)





Atualmente encontram-se descritas cerca de 4680 espécies de anfíbios no mundo e os Anuros constituem a ordem mais numerosa dos anfíbios, com cerca de 4100 espécies descritas de rãs, relas e sapos. De uma forma geral apresentam um corpo reduzido sem cauda, as patas posteriores são maiores que as anteriores, encontrando-se adaptadas ao salto e durante o estado larvar possuem uma cauda bastante conspícua e um corpo volumoso. Uma das espécies mais comuns de Anuro no nosso território continental é o Epidalea calamita (sapo-corredor, anteriormente designado de Bufo calamita), que ocorre desde o nível do mar até aos 1900 m de altitude, na Serra da Estrela. Está adaptado a uma grande variedade de condições climáticas, ocupando desde regiões montanhosas com elevada precipitação, no Norte do país, a zonas semiáridas, no Sul.



Uma das características distintivas do Epidalea calamita (sapo-corredor) é a orientação horizontal da pupila e a coloração verde da íris.  
O sapo-corredor faz jus ao seu nome comum, contrariamente aos restantes sapos que se deslocam através de saltos, o sapo-corredor desloca-se através de pequenas corridas mais ou menos rápidas. 

 
A sua evolução reprodutiva foi-se especializando à utilização de charcos temporários, à concentração dos acasalamentos e a um ciclo de metamorfótico reduzido, sendo mesmo o anfíbio da nossa fauna a completar este ciclo, que em caso de stress hídrico pode ser realizado em apenas 20-30 dias. Esta evolução permitiu a este anfíbio utilizar corpos de água que por serem temporários, estão menos sujeitos a predadores, reduzindo assim a taxa de mortalidade de ovos e larvas.



O sapo-corredor, tem um aspeto robusto, com 6-9 cm de dimensão, pele rugosa com numerosas verrugas mais ou menos aplanadas podendo variara entre o castanho e o vermelho, a sua coloração dorsal é bastante variável, mas normalmente é com manchas irregulares esverdeadas sobre um fundo esbranquiçado e com um ventre de coloração clara com manchas escuras.



Embora seja uma espécie caracterizada de hábitos crepusculares ou noturnos, podem ser observados com alguma frequência exemplares ativos durante o dia, especialmente com tempo húmido e em zonas mais sombrias, tais como bosques frondosos, entrada de minas e linhas de água encaixadas. Durante o dia refugiam-se em lugares escuros e húmidos, como debaixo de grandes pedras e troncos, fendas, tocas de pequenos roedores, reentrâncias de rochas ou afloramentos rochosos, minas e grutas. São animais com hábitos terrestres cuja ligação à água está limitada ao período reprodutor e desenvolvimento larvar. 

 
Durante a época reprodutiva e aproveitando as águas das chuvas primaveris, o macho abraça fixamente a fêmea sob as axilas (amplexo axilar) e fertiliza os 4000 ovos que ela libertam agrupados num longo e um fino cordão gelatinoso constituído por apenas uma fiada de ovos. Após 5-15 dias da postura eclodem os girinos com 1 a 3 cm de comprimento, a sua metamorfose decorre entre 20 dias a dois meses. A maturidade sexual do sapo-corredor é atingida aos 2 anos e a sua longevidade na natureza normalmente não supera os 5 anos. 
Uma das maiores ameaças desta espécie é sem dúvida a sua morte por atropelamento, principalmente na época de reprodução, altura em que os indivíduos necessitam de se deslocar (podendo percorrer várias centenas de metros) até zonas de reprodução. Entre os seus inimigos naturais incluem-se as cobras de água, víboras e várias aves de rapina (milhafres, tartaranhões, águias, mochos e corujas) e as lontras.


Os adultos alimentam-se essencialmente de escaravelhos, moscas, minhocas e larvas de insetos e as larvas são predominantemente herbívoras e detritívoras.