quarta-feira, 5 de março de 2014

Morcegos e estradas




Tendo em conta que o conhecimento geral da biologia e ecologia de muitas espécies e existentes em Portugal continental é ainda muito escasso, deixo aqui o resumo de um artigo recentemente publicado com o meu singelo trabalho sobre a utilização das passagens inferiores por parte dos morcegos.

 Tipologia das passagens estudadas

Resumo: Com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre a utilização das passagens inferiores por parte dos morcegos, desenvolveu-se trabalhos de deteção acústica, captura e prospeção de refúgios em cinco passagens inferiores localizadas ao longo de 8250 metros de estrada, situada no Norte de Portugal em zona rural de uso agrícola e pastoreio. As passagens têm dimensão média de 9 m de largura, 4,25 m de altura e 34 m de comprimento. Os resultados dos registos acústicos e de captura de morcegos com redes, permitiram confirmar a utilização de pelo menos 12 espécies (Pipistrellus pipistrellus, P. kuhlii, P. pygmaeus, Myotis daubentonii, M. escalerai, M. myotis, Nyctalus leisleri, Plecotus austriacus, Rhinolophus ferrumequinum, R. hipposideros, R. mehelyi/R. euryale y Eptesicus serotinus/E. isabellinus). A inspeção e prospeção de abrigos nas 5 passagens inferiores, permitiram constatar a presença de pelo menos 6 espécies (M. daubentonii, M. myotis, N. leisleri, P. austriacus, Eptesicus serotinus/E. isabellinus y Pipistrellus sp), que usaram fissuras do interior das passagens, entre 1,2 e 1,9 cm. Para dimensões de altura (4,2-4,3m) e largura (9) similares, as passagens mais utilizadas foram as de maior comprimento. Estes resultados confirmam a importância que as passagens inferiores têm na conectividade e minimização de impactes das estradas, assim como proporcionarem novos locais de refúgios artificiais para os morcegos. Incentiva-se promover monitorização e estudos ecológicos mais detalhados que aprofundem o conhecimento da utilização dos quirópteros destas estruturas, assim como as suas características físicas e envolventes 

 Myotis daubentonii

 Epstesicus serotinus

 Nyctalus leisleri

Abstract: The main goal of this study was to contribute for the knowledge of the use of under-roads passageways by bats in northern of Portugal. We selected five underpasses in a road stretch of 8.250 m located in a rural agricultural and grazing area. The average dimensions of underpasses were, 9 m wide, 4.25 m high and 34 m deep. The data was obtained through acoustic detection, mist net capture and roost inspection. Acoustic and mist netting results confirm the use of the underpasses by at least 12 species (Pipistrellus pipistrellus, P. kuhlii, P. pygmaeus, Myotis daubentonii, M. escalerai, M. myotis, Nyctalus leisleri, Plecotus austriacus, Rhinolophus ferrumequinum, R. hipposideros, R. mehelyi/R. euryale and Eptesicus serotinus/E. isabellinus). Data from roost inspection in all the underpasses showed the presence of at least six species (M. daubentonii, M. myotis, N. leisleri, P. austriacus, Eptesicus serotinus/E. isabellinus y Pipistrellus sp.), they used fissure within the tunnels of between 1.2 and 1.9 cm. For the same height (4.2-4.3 m) and width (9m), the underpasses most used were the longest. These results stress the importance of underpasses in improving the connectivity and permeability between areas, along with its potential to offer new roosts for bats. We encourage further monitoring and detailed ecological studies to better understand the physical and environmental characteristics that underpin the usage of such structures by bats.

 Pipistrellus pipistrellus

 Plecotus austriacus

Para quem tiver interesse pode descarregar o artigo completo na barra lateral direita deste bolg.

sábado, 1 de março de 2014

Um pigmeu gigante



De entre todos os morcegos, o Pipistrellus pygmaeus (morcego-pigmeu) é o mais pequeno da nossa fauna, pesando em média apenas 4 gramas, em termos de comparação e para quem tenha dificuldade em ter a noção da ordem de grandeza, seria necessário dois morcegos-pigmeus para pesar o equivalente a um saquinho de açúcar.


Os 39ºC de temperatura corporal e os cerca de 1000 batimentos cardíacos por minuto, faz com que este morcego dissipe muita energia, pelo que esta perda de energia tem que ser compensada pela ingestão de muita comida e é aqui que este pigmeu se torna num gigante!

 Pipistrellus pygmaeus (morcego-pigmeu)

Por noite este pequeno morcego, come em média 1.000 insetos (principalmente melgas e mosquitos), se tivermos em conta que o período de atividade é de 10 meses (300 dias), em apenas um ano, um morcego-pigmeu consome aproximadamente 300 mil melgas e mosquitos, multiplicando este número pela esperança de vida média, que é de 15 anos. Um morcego-pigmeus durante a sua vida come cerca de 4,5 milhões de melgas e mosquitos, o equivalente a cerca de 11 quilos de melgas e mosquitos!


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Migração das aves


De uma forma simplificada podemos descrever a migração das aves como uma deslocação intencional e periódica entre os locais de nidificação e os locais de invernada. Estes movimentos são, geralmente, efectuados ao longo do eixo Norte-Sul e podem ser percorridas grandes distâncias (até 18 000 kms no caso da Gaivina do Árctico Sterna paradisea). Os principais objectivos destes movimentos são encontrar mais facilmente alimento e ter melhores condições meteorológicas.

Estas movimentações desde muito cedo têm despertado a nossa curiosidade e admiração pelo que têm sido muito estudadas utilizando técnicas como o registo das datas de chegada a diferentes locais, a anilhagem e a marcação com emissores de satélite ou geo-localizadores.

Devido aos seus movimentos, as espécies migradoras ficam expostas a um maior número de factores de ameaça como a destruição de habitat (especialmente nos locais de invernada ou de descanso) ou estruturas potencialmente perigosas como as linhas eléctricas ou aerogeradores e a perseguição (especialmente durante as suas movimentações). Também as alterações climáticas podem afectar, de forma particular, este conjunto de aves podendo causar o aumento das distâncias a percorrer ou alterar o calendário fenológico da espécie.

Todos conhecemos casos de espécies migradoras que invernam em África e que se vêm reproduzir ao nosso país como é o caso dos Cucos ou das Cegonhas.
De facto, em Portugal há espécies que apenas estão presentes durante a época de nidificação e se deslocam para o continente africano para aí invernarem e há espécies que apenas estão presentes no Inverno fazendo movimentos migratórios para as áreas de reprodução no norte e centro da europa. No entanto, esta diferenciação, nem sempre é assim tão clara já que há espécies em que apenas uma parte da população migra (como é o caso da Cegonha-branca Ciconia ciconia) ou casos em que a espécie apresenta movimentos de migração a norte do país e ocorre todo o ano a sul (como é o caso da Codorniz Coturnix coturnix).




Está prestes a iniciar mais uma época de chegadas das espécies que vêm nidificar ao nosso país. A cada ano vai havendo algumas alterações das datas das primeiras observações deste conjunto de aves. Deixo aqui um pequeno registo que fui fazendo no ano de 2013, com as datas e locais em que observei pela primeira vez algumas destas espécies.


Nome comum
Nome científico
1ª Obs.2013
Localidade (concelho)
Andorinha-dos-beirais
Delichon urbicum
04-Fev
São João da Pesqueira
Águia-cobreira
Circaetus gallicus
15-Fev
Mogadouro
Cegonha-preta
Ciconia nigra
21-Fev
Celorico da Beira
Andorinha-das-chaminés
Hirundo rustica
01-Mar
São João da Pesqueira
Milhafre-preto
Milvus migrans
13-Mar
Aveiro
Britango
Neophron percnopterus
14-Mar
Mogadouro
Andorinha-dáurica
Cecropis daurica
16-Mar
Freixo de Espada à Cinta
Cuco-canoro
Cuculus canorus
19-Mar
Guarda
Tartaranhão-caçador
Circus pygargus
20-Mar
Guarda
Papa-amoras-comum
Sylvia communis
21-Mar
Guarda
Andorinhão-preto
Apus apus
24-Mar
Figueira da Foz
Andorinhão-pálido
Apus pallidus
24-Mar
Figueira da Foz
Mocho-pequeno-d’orelhas
Otus scops
03-Abr
São João da Pesqueira
Codorniz
Coturnix coturnix
04-Abr
São João da Pesqueira
Águia-calçada
Aquila pennata
06-Abr
São João da Pesqueira
Abelharuco
Merops apiaster
07-Abr
São João da Pesqueira
Toutinegra-carrasqueira
Sylvia cantillans
11-Abr
Guarda
Papa-figos
Oriolus oriolus
16-Abr
Freixo de Espada à Cinta
Andorinhão-real
Apus melba
16-Abr
Mogadouro
Rouxinol-comum
Luscinia megarhynchos
17-Abr
Mogadouro
Chasco-ruivo
Oenanthe hispanica
17-Abr
Freixo de Espada à Cinta
Picanço-barreteiro
Lanius senator
17-Abr
Mogadouro
Torcicolo
Jynx torquilla
18-Abr
Freixo de Espada à Cinta
Sombria
Emberiza hortulana
21-Abr
Guarda
Cuco-rabilongo
Clamator glandarius
22-Abr
Évora
Chasco-cinzento
Oenanthe oenanthe
22-Abr
Évora
Peneireiro-das-torres
Falco naumanni
26-Abr
Elvas
Rolieiro
Coracias garrulus
26-Abr
Elvas
Rola-brava
Streptopelia turtur
08-Mai
Alijó
Felosa de Bonelli
Phylloscopus bonelli
11-Mai
Mogadouro
Felosa-poliglota
Hippolais polyglotta
18-Mai
Guarda
Bútio-vespeiro
Pernis apivorus
20-Mai
Guarda