terça-feira, 10 de agosto de 2010

Pelo Tâmega: morcegos e outros voos


Marco Fachada a anotar os dados biométricos dos morcegos capturados (foto: Luís Braz)

Creio que o vale do Tâmega tem sido um dos “enteados” da conservação da natureza em Portugal. Poderia aqui expor muitas razões, mas fico-me pela indiferença que este território tem tido ao longo dos anos, por parte da tutela, por parte das instituições de investigação, pela parte dos decisores, etc. Depois, como falta conhecimento em várias áreas, é fácil permitirem-se certas opções “estratégicas” para o país, mas adiante. No meio disto tudo, há excepções. Falemos então duma delas: o Paulo Barros anda há algum tempo a inventariar os morcegos do norte do país. Em 4 sessões de captura distribuídas por dois fins-de-semana, realizadas no vale do Tâmega, incluindo um ponto exactamente nas suas águas, foram capturados 43 individuos, distribuídos por 11 espécies, nomeadamente, Myotis daubentonii (n=15), Eptesicus serotinus (n=9), Pipistrellus pipistrellus (n=6), Hypsugo savii (n=3), Barbastella barbastellus (n=3), Nyctalus leisleri (n=2), Nyctalus noctula (n=1), Myotis nattereri (n=1), Pipistrellus pygmaeus (n=1), Plecotus auritus (n=1) e Plecotus austriacus (n=1). Se somarmos o conhecido Tadarida teniotis, temos então para o troço superior do rio Tâmega, pelo menos 12 espécies já confirmadas.
Nyctalus noctula capturado numa das sessões de armadilhagem realizadas no Alto Tâmega (foto Luís Braz)

Claro, falta saber muito sobre a sua distribuição e ecologia, mas somando às mais de 130 espécies de aves (só no troço a Norte de Chaves), as dezenas de répteis e anfíbios, as várias centenas de espécies de plantas, um número incontável de invertebrados (entre os quais libélulas e outros insectos classificados na Directiva Habitats), e vários mamíferos de presença confirmada, bem podemos dizer que para lá das áreas protegidas e da Rede Natura também há (muita) vida...


Texto da autoria de Marco Fachada

domingo, 8 de agosto de 2010

Saiu no Jornal


Barbastella barbastellus, uma das espécies capturas no Alto Tâmega

AQUI podem ver uma notícia que saiu no Jornal de Noticias de Domingo (08/08/2010), sobre uma das noites de captura de morcegos que realizei no Rio Tâmega em Chaves.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O que se pode fazer aos fins-de-semana!


 Distribuição da Anax imperator
 “The known distribution of 36 species of dragonfly in Portugal is extended with 220 records from 50 localities in the north of the country, collected between 2008 and 2009. The new data include information from three Sites of Community Importance of the Natura 2000 network: PTCON0003-Alvão-Marão, PTCON0025-Montemuro and PTCON0021-Rio Sabor e Maçãs; and five protected areas: Serra da Estrela Natural Park, Azibo’s Lagoon Protected Landscape, Alvão Natural Park, Douro International Natural Park and Montesinho Natural Park.”


“The present work aims to contribute to the better definition of Odonata species distributions in northern Portugal, and includes data from areas not prospected in the past, as in the case of the SIC PTCON0025Montemuro, and from species of the Habitats Directive, such as Macromia splendens. All records in this paper were collected by the first two authors between 2006 and 2009 during the weekends or in the course of works of ecological monitoring focussed on other organisms.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O mundo das libelinhas

Para quem gosta de libélulas e libelinhas, aqui ficam algumas espécies da nossa fauna.
Calopteryx haemorrhoidalis
Calopteryx virgo
Lestes barbarus
Lestes dryas
Lestes viridis
Lestes virens
Coenagrion puella
Ceriagrion tenellum
Erythromma lindenii
Ischnura graellsii
Enallagma cyathigerum
Pyrrhosoma nymphula
Platycnemis latipes
Aeshna cyanea
Anax imperator
Boyeria irene
Gomphus simillimus
Gomphus pulchellus
Onychogomphus forcipatus
Onychogomphus uncatus
Cordulegaster boltonii
Crocothemis erythraea
Libellula depressa
Libellula quadrimaculata
Orthetrum cancellatum
Orthetrum coerulescens
Sympetrum fonscolombii
Sympetrum sanguineum
Sympetrum striolatum
Trithemis anulata

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Quem precisa de Machos?

A Ischnura hastata é um Odonata que ocorre nos Açores, a particularidade desta espécie é que as populações existentes no arquipélago dos Açores são constituídas apenas por fêmeas, estas populações desenvolveram a capacidade de porem ovos férteis sem necessitarem de machos, que biologicamente é denominado de partenogénesis e o mais curiosos é que esta espécie se reproduz normalmente no resto do mundo. A partenogénesis já tinha sido descrita em diferentes espécie, sobre tudo em insectos (Phasmida), mas é a primeira vez que é descrito para os Odonatas.

domingo, 27 de junho de 2010

Cerambyx cerdo



Quem anda no campo está sempre sujeito a tropeçar em bichos, mesmo que não sejam espécies que estejamos à espera. Foi o caso deste Cerambyx cerdo ssp. mirbecki no qual tropecei na Reserva da Faia Brava, quando me preparara a colocar um morcego (Plecotus austriacus) num sobreiro, que tinha capturado uns minutos atrás.

Taxonomia:
Reino: Animalia
Classe: Insecta
Ordem: Coleoptera
Família: Cerambycidae
Género: Cerambyx
Espécie: Cerambyx cerdo, Linnaeus, 1758
Subespécies: Cerambyx cerdo mirbecki, Lucas, 1842

Habitat
Espécie típica de sobreirais e carvalhais húmidos ibéricos, as suas larvas foram descritas por Ratzeburg em 1839 e desenvolvem-se nas partes morta de espécies arbóreas de Quercus, podendo também encontrar-se em espécie como Castanea, Betula, Salix, fraxinus, Ulmus, Juglans, Fagus, Robinia. Os adultos voam ao entardecer entre as árvores que lhe servem de alimento, podem-se ser observados entre Maio e Agosto.
Reprodução:
Os ovos são depositados entre Junho e Setembro, nas feridas e outras fendas do tronco e ramos das árvores. As larvas eclodem poucos dias depois da postura e o seu desenvolvimento dura 31 meses, sendo o primeiro ano passado na zona cortical, perfurando depois a madeira, onde escava uma série de galerias que debilitam a árvore e podem provocar a sua morte. As larvas desenvolvem-se ao longo de três a cinco anos e passam por cinco estádios larvares. A fase de pupa ocorre entre final do Verão e o Outono e dura 5-6 semanas. Os adultos hibernam, só surgindo no Verão seguinte para se reproduzir. Espécie predominantemente crepuscular-nocturna, o que dificulta a sua detecção. No médio mediterrâneo podem ser também observados ao durante o dia.
Distribuição
O Cerambyx cerdo apresenta uma distribuição euroasiática, contudo a subespécie mirbecki, localiza-se exclusivamente na área mediterrânica ocidental. Em Portugal é uma espécie difundida por todo o território nacional. No Sul está associada à distribuição de Quercus suber e Quercus rotundifolia.
Alimentação:
As larvas são xilófagas, consumindo madeira velha ou morta. Os adultos alimentam-se da seiva de feridas recentes e de frutos maduros.
Ameaças:
A principal ameaça do Cerambyx cerdo está associada à perda de habitat. Curiosidades:
Embora esta espécie seja predominantemente crepuscular-nocturna, não é raro serem encontrados indivíduos em plena luz do dia. Esta espécie parecer ser atraída pela luz ultra violeta. As fêmeas podem por mais de 300 ovos.
Dimensões:
As larvas chegam a atingir 9-10 cm, assim como o adulto.
Estatuto de conservação:

Esta espécie encontra-se no Anexo BII e BIV da Directiva Habitat, sendo de interesse comunitário, cuja conservação exige protecção rigorosa e a sua área de ocorrência exige a designação de zona especial de conservação. Encontrando-se ainda incluída nos anexos III da Convenção de Berna.
Referências e Sites:
Vives, E. (1996). Coleoptera Cerambycidae. Fauna Ibérica. C.S.I.C.. Museo de Ciencias Naturales de Madrid.
Luce JM (1997). Cerambyx cerdo Linnaeus, 1758. In: Background information on Invertebrates of the Habitats Directive and the Bern Convention. Part I - Crustacea, Coleoptera and Lepidoptera. Pp 22-26. Helsdingen PJ, Willemse L, Speight MCD (eds.). Nature and Environment, nº 79. Council of Europe. 

domingo, 13 de junho de 2010

Nyctalus Lasiopterus

O Morcego-arboricola-gigante é um espécie que pelo seu tamanho nos impõe respeito e que nos enche a não, ao contrário de algumas outras espécies (e.g. Pipistrellus sp.) que nos conseguem escapar por entre os dedos.

Identificação:

O Nyctalus lasiopterus é o maior morcego Europeu, muito robusto com cabeça forte e orelhas amplas. Tem pêlo denso, relativamente longo e unicolor, sendo castanho-avermelhado no dorso e castanho-escuro no ventre. No machos os pêlos do pescoço, são particularmente longos, fazendo lembrar as jubas do leões eriçando-se quando agitados. As áreas desprovidas de pêlo são pretas ou castanhas, as asas são muito longas com pelos castanhos na parte inferior.

Espécies similares:

Pelo seu tamanho, em Portugal não existem espécies passíveis de serem confundidas com o Nyctalus lasiopterus.

Ecolocalização:

Acima dos 28ms, quase sempre com frequência constante e emissões baixas, entre os 14 e 23kHz. Em área abertas os chamamentos longos entre 17 e 20 kHz são claramente audíveis ao ouvido humano.

Distribuição:

Na Europa tem uma distribuição ampla mas muito fragmentada. Em Portugal a informação relativamente a esta espécie é bastante escassa, contudo é provável que ocorra em todo o território nacional mas com densidades baixas e bastante fragmentada.

Habitat:

O Morcego-arborícola-gigante é uma espécie florestal aparentemente associada a florestas de folhosas bem desenvolvidas, nas zonas montanhosas a sua preferência passa por espécies resinosas. Os jardins e parques com plátanos podem constituir também habitat para esta espécie. Os poucos abrigos conhecidos são em castanheiros, abetos e plátanos, podendo também ocuparem caixas-abrigos ou mesmo fendas em grandes minas.

Reprodução:

Em Espanha foram encontrados abrigos de criação com mais de 80 animais, constituído unicamente por fêmeas, em alguns países os abrigos de criação pode ser partilhado com os Nyctalus leisleri e noctula, durante o verão os machos encontram-se separados ou em pequenos grupos. As fêmeas ficam prenhes no inicio do Outono, ainda não é claro se ter gémeos é normal ou não nesta espécie. As crias nascem no início de Junho e pesam 9-10 gramas, os seus antebraços medem 26-27mm.

Alimentação:

A sua dieta alimentar baseia-se basicamente em grandes insectos, como traças, odonatas e escaravelhos que caça em zonas abertas. A presença de restos de aves nas fezes desta espécie foi confirmada muito recentemente na Itália, Espanha e Grécia.

Mobilidade:

Alguns indivíduos parecem realizar longas distâncias, a ausência de fêmeas no Verão na Grécia e a sua presença no Inverno, indica pelo menos migrações sazonais.

Medidas de conservação:

Preservação de florestas de montanha com elevada proporção de árvores adultas, assim como a preservação de sobreirais e árvores velhas em galerias ripícolas.

Dimensões:

Tem um comprimento de antebraço (FA) que varia entre 61,0- 70,0 mm e tem um peso de 35-53 g. Podendo atingir os 50 cm de envergadura.

Estatuto de conservação:

Esta espécie de acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal é classificada como “Informação insuficiente” (DD), não existindo até à data informação adequada para avaliar o risco de extinção, nomeadamente quanto à redução do tamanho da população e à tendência de declínio. Esta espécie encontra-se no Anexo BIV da Directiva Habitat, sendo de interesse comunitário, cuja conservação exige protecção rigorosa. Encontrado-se ainda incluída nos anexos II da Convenção de Berna e Bona.

Referências e Sites:

Dietz, C., O. V. Helversen & D. Nill (2009). Bats of Britain, Europe & Northwest Africa. A & C Black Publishers Ltd.

Dondini, G. & S. Vergari (2000). Carnirory in the greater noctule bat (Nyctalus lasiopterus) in Italy. J. Zool. 251: 233-236.

M. Uhrin, P. Kaˇnuch, P. Benda, E. Hapl, H.D.J. Verbeek, A. Kristín (2006). On the greater noctule (Nyctalus lasiopterus) in central Slovakia, Vespertilio 9 (10) 183–192.

Livro Vermelho de Portugal