quinta-feira, 6 de maio de 2010

Duas espécies e um abrigo

Um destes, estava a fazer inversão de marcha num caminho de terra batida, e quando olhei pelo retrovisor vi uma coisa a subir pela parede acima num palheiro de tijolos, à primeira vista pensei que fosse um réptil qualquer, mas pareceu-me muito estranho…. Depois de virar o carro fui buscar a minha máquina e quando vi que se tratava de dois morcegos, fiquei surpreendido, isto porque eram 2-3 da tarde. Intrigado pelo facto dos morcegos estarem activos em plena luz do dia, fui tentar perceber a razão.

Quando descobri que estes morcegos (Pipistrellus Kuhlii) se abrigavam dentro de um tijolo percebi logo o que se passava. O mesmo buraco estava a ser partilhado por uma pequena colónia de morcegos (8-10) indivíduos e um exame de abelhas.

Muito embora estas duas espécies tenham períodos de actividades diferente, ao que parece a partilha de abrigos não é lá muito pacífica.

sábado, 1 de maio de 2010

Armadilhagem fotográfica

O meu fascínio pelos mamíferos, já vem desde há muito tempo mas sentia-me frustrado quando ia ao campo para os ver, mas a única coisa que se ia vendo eram apenas indícios.

Deste modo, e sabendo que a alternativa que tinha para saber e ver os “bichos” que andavam pelo campo, teria que ser por maquinas fotográficas/vídeo, mas que não estavam ao alcance de qualquer um, nem a tecnologia estavam tão evoluída como no presente…

Agora que a tecnologia está mais acessível, adquiri 2 câmaras fotográficas para satisfazer a minha curiosidade pelos “bichos”.

Figura 1: Câmara fotográfica


Apesar de o tempo livre ser muito escasso, as máquinas já foram colocadas 4 ou 5 vezes; Aqui ficam alguns do resultados:

Figura 2: Corço (Capreolus capreolus)


Figura 3: Fuinha (Martes foina)


Figura 4: Leirão (Eliomys quercinus)


Figura 5: Raposa (Vulpes vulpes)


Aqui tive a visita de um Gaio que se encarregou de me levar todo o isco colocado…

Figura 6: Gaio (Garrulus glandarius)


segunda-feira, 26 de abril de 2010

Blanus cinereus


Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Reptilia
Ordem: Squamata
Família: Amphisbaenidae
Género: Blanus
Espécie: Blanus cinereus (Vandelli, 1797)

Descrição:
A Cobra-cega é um réptil de aspecto vermiforme, sem membros, com um comprimento total de 26 a 28cm, de coloração rosa, arroxeada, cinzenta e todos os tons possíveis de castanho. A sua cabeça é triangular, separada do corpo por um sulco transversal e possui um focinho arredondado. Os seus olhos atrofiados (característica particular), são cobertos por escamas, visíveis apenas como dois pontos negros sob a pele. A cabeça e o corpo estão cobertos por escamas regularmente dispostas em filas longitudinais e de tamanho semelhante, podendo ter cerca de 110 a 134 anéis de escamas no corpo e 20 a 42 na cauda, o que lhe confere um aspecto segmentado. A extremidade da cauda é arredondada.
Dimorfismo sexual escasso, os machos podem atingir um comprimento total (cabeça-corpo) de 25,4cm e as fêmeas de 23,5cm. Foi também registada uma maior taxa de crescimento da altura da cabeça nos machos, durante a ontogenia.
Juvenil de aspecto e coloração semelhantes ao adulto.

Espécies similares:
Inconfundível, pelo seu aspecto geral e coloração normalmente rosa.

Distribuição:
Espécie endémica da Península Ibérica, onde está ausente apenas numa faixa contínua, situada norte, que engloba o extremo Noroeste de Portugal, a Cordilheira Cantábrica a os Pirenéus. Pode ser encontrada desde o nível do mar até aos 2000m na Serra de los Filabres (Almeria). Em Portugal a sua ausência devido a condicionantes climáticas parece limitar-se ao Extremo Noroeste do país, área abrangida pela região atlântica. A sua aparente ausência noutras áreas pode estar relacionada com características do meio, quer naturais (solos muito argilosos ou muito arenosos e ausência de pedras), quer humanas (e. g. exploração silvícola intensa e áreas urbanas). Estes locais sem observações podem reflectir uma ausência real mas também dificuldades de detecção. Encontra-se até aos 1000 na Serra de Santa Comba em Trás-os-Montes (Valpaços/Mirandela). Recentemente foi confirmada a sua presença nos concelhos de Gondomar e Vila Nova de Gaia, o que salienta a importância do corredor formado pelo vale do rio Douro (mais quente e seco do que os planaltos envolventes), como meio de conexão entre este núcleo e as regiões do interior (área principal de distribuição).

Biologia:
Esta espécie possui hábitos subterrâneos, embora possa ser encontrada á superfície, daí ser tão difícil de observar. Apresenta uma capacidade invulgar de escavar túneis, nos quais se pode deslocar em ambas as direcções devido às suas extremidades arredondadas, escavando a profundidades distintas ou colocando-se sob rochas de diferentes tamanhos e espessuras, a fim de alcançar a sua temperatura corporal óptima (19ºC a 24ºC). Tem actividade diurna e nocturna, e pode encontrar-se activa de Fevereiro a Novembro. O seu período reprodutor parece iniciar-se no inicio da Primavera no sul da P. Ibérica. As fêmeas colocam geralmente um ovo (1 a 2) de grandes dimensões (23,6-29,2mm de comprimento e 4,8-5,5mm de largura) no solo ou debaixo de troncos em decomposição. È um predador generalista e os seus padrões de selecção da dieta sugerem que é um “procurador activo” (“widely foraging”), consistindo a sua alimentação em formigas, larvas de insectos e outros artrópodes. Parece utilizar os sinais auditivos associados ao movimento para localizar as presas a grandes distâncias, e os sinais químicos e odoríferos para identificar e descriminar as mesmas a curtas distâncias. Os seus principais predadores são aves, répteis e até um anfíbio, o Sapo-comum (Bufo bufo).

Habitat:
Pode ser encontrada em galerias escavadas no solo e debaixo de pedras, onde procura calor para efectuar termorregulação. Ocupa principalmente as áreas de clima mediterrânico, encontrando-se associada a zonas quentes com uma certa humidade, em solos que pouco compactados, que permitam a escavação. São as características do substrato as que têm uma influência directa na selecção do microhabitat, tendo o coberto vegetal uma influência indirecta. O diâmetro das suas galerias é ajustado ao tamanho do seu corpo. Típica de baixas altitudes.

Curiosidades:
Na presença de perigo, quando não pode escapar pelos túneis, enrola o corpo sobre si mesma ou sobre algum objecto ao seu alcance, ou contorce-se violentamente. Possui autotomia da cauda a partir do quarto anel pós-cloacal. Pode também morder, mas não possui veneno e é totalmente inofensiva para o Homem.
È frequente apresentar albinismo parcial (numa população do sul da Galiza, 21,9% dos indivíduos observados (n=32) tinha albinismo parcial, (tendo já sido observado um individuo totalmente albino)), como o indivíduo aqui registado (foto em baixo). Apresenta fluorescência azul/verde quando iluminada com luz ultravioleta.

Conservação e ameaças:
Os seus hábitos subterrâneos e secretivos reduzem o impacte de algumas ameaças comuns a outras espécies de herpetofauna (atropelamento e perseguição humana).
A preservação da qualidade do solo é indispensável para a manutenção de populações viáveis. Deste modo as maiores ameaças relacionam-se com os povoamentos florestais de espécies exóticas; a agricultura industrializada que recorre a maquinaria pesada e a pesticidas e herbicidas em quantidades elevadas. A perda do mosaico paisagístico e empobrecimento dos locais de alimentação e abrigo também são factores importantes na diminuição da abundância desta espécie.

Estatutos de conservação:
Possui um estatuto de “Pouco Preocupante” (LC), quer a nível internacional (IUCN), quer em Portugal e Espanha.

Referências:
Ferrand de Almeida, N; Ferrand de Almeida, P; Gonçalves, H; Sequeira,F; Teixeira, J & F, Ferrand de Almeida. 2001. Guia FAPAS dos Anfíbios e Répteis de Portugal. FAPAS e Câmara Municipal do Porto. Porto. 249 pp.
Ribeiro, B. S. (2008): Blanus cinereus. Pp 164-165, in: Loureiro, A., Ferrand de Almeida, N., Carretero, M. A., & Paulo, O. S. (eds), Atlas dos Anfíbios e répteis de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, Lisboa.

Bat's in the net

A época de capturas de morcegos deste ano está a aproximar-se (assim que o tempo estabilizar), e nada melhor do que fazer uma retrospectiva das capturas realizadas no ano de 2009. Depois de percorridos mais de 2500Km, 100 horas passadas ao relento (e muitas delas dentro de água), consegui realizar 29 pontos de amostragem (com capturas efectivas), distribuídos pelo Norte e Centro de Portugal Continental, nos quais foram capturados 225 indivíduos, de 18 espécies diferentes, que representam 75% das espécies existentes e consideradas actualmente para Portugal Continental.

Os resultados obtidos, permitiram a aquisição de novos dados para espécies com Informação Insuficiente (DD), assim como para as espécies com estatuto de ameaça (CR, VU, EN), e ainda a confirmação da presença do Myotis escalerai e do Myotis daubentonii morfotipo nathalinae para o Norte de Portugal Continental.

O número de capturas por espécie foi a seguinte:

Rhinolophus hipposideros VU (n=1)

Rhinolophus euryale CR (n=1)

Myotis bechsteinii EN (n=1)

Myotis myotis VU (n=7)

Myotis escalerai VU* (n=14)

Myotis emarginatus DD (n=4)

Myotis mystacinus DD (n=7)

Myotis daubentonii nathalinae LC (n=40)

Pipistrellus pipistrellus LC (n=33)

Pipistrellus kuhlii LC (n=5)

Pipistrellus pygmaeus LC (n=2)

Hypsugo savii DD (n=16)

Nyctalus leisleri DD (n=13)

Eptesicus serotinus LC (n=40)

Barbastella barbastellus DD (n=4)

Plecotus auritus DD (n=4)

Plecotus austriacus LC (n=28)

Miniopterus schreibersii VU (n=5)

* Estatuto considerado para o Myotis nattereri


Embora se fale muito na protecção de abrigos, quer de hibernação quer de reprodução, como medida de conservação para morcegos, os locais de “swarming” representam locais sensíveis e fulcrais para a conservação deste grupo faunístico. Apesar de muitos abrigos classificados como “de Importância Nacional para morcegos” possam ser locais de “swarming”, outros que não têm os critérios mínimos para a sua classificação, podem representar uma mais-valia para a conservação de morcegos. Deste modo, seria bom começarmos a pensar em incluir na listagem dos abrigos “de Importância Nacional para morcegos”, os abrigos que sejam locais de “swarming”, como por exemplo a mina de Vila Cova.

Não poderia escrever este post sem agradecer a todos aqueles que me fizeram companhia durante algumas das noite, nomeadamente ao Carlos Rodrigues, Diana Balsa, Hélia Gonçalves (mais a Luna e a Bolinha), Luís Braz, Joana Medeiros, João Gaiola, Paulo Travassos e ao meu tio Chico agricultor há mais de 50 anos pelas suas histórias de lobos, leirões e outros bichos que me contou enquanto esperava pelos morcegos. Um agradecimento especial à Estação Biológica de Doñana em particular ao Javier Juste e toda sua equipa pela confirmação genética de alguns exemplares. E finalmente a todas as Corujas que me fizeram companhia nas noites que passei sozinho.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Lampides boeticus


Identificação:
A Lampides boeticus é uma espécie de lepidóptero diurno da família LYCAENIDAE. Esta borboleta apresenta, na face inferior das asas, tons castanhos-claros, esbranquiçados e beges misturados em padrões irregulares. Também nesta face da asa posterior pode ser observado um ponto escuro orlado de colorações laranja e uma banda branca na região pós-mediana. A face superior apresenta um tom violeta profundo, os bordos marginais escuros e dois pontos negros orlados de branco. São também evidentes as fímbrias de cor branca.
Espécies similares:
Em Portugal, esta espécie poderá ser confundida com a Leptotes pirithous da qual se distingue por apresentar a, já referida, banda branca na face inferior da asa posterior.
Distribuição:
No nosso país esta espécie poderá ser observada em todo o território e parece ser uma espécie abundante. Na Europa é comum nas regiões do sul sendo rara no Reino-Unido o seu limite norte de distribuição parece ser o Norte da Alemanha. É uma espécie migradora que prefere locais quentes com altitudes máximas de 1000 metros.
Habitat:

Este lepidóptero pode ser encontrado em diversos habitats sempre com a presença de algumas leguminosas.
Alimentação:
A lagarta desta pode alimentar-se de várias espécies da família Fabaceae como as ervilheiras Pisum spp. ou os codeços Adenocarpus complicatus. Esta espécie associa-se com formigas, que vivem dentro das vagens das espécies das quais a borboleta se alimenta enquanto larva ou adulto.
Medias de conservação:
Sendo uma espécie vulgar e de ampla distribuição, esta espécie parece não necessitar de medidas direccionadas à sua conservação.
Dimensões:
A envergadura desta espécie está compreendida entre os 30 e os 35 milímetros.
Estatuto de conservação:
Em Portugal parece ser uma espécie comum e, em principio, não ameaçada.
Observações:
Esta espécie foi observada e fotografada no início de Agosto e em Outubro de 2009 na região de Urrós (conselho de Mogadouro) dentro dos limites do PNDI.
Referências e Sites:
Maravalhas, E. (ed.), 2003, As Borboletas de Portugal. Porto.
Tolman, T. e Lewington, R., 2008, Collins Butterfly Guide: The Most Complete Field Guide to the Butterflies of Britain and Europe, England.
Sariot, M.G.M., 1995, Mariposas Diurnas de la Provincia de Granada. Granada.
http://www.tagis.org/
http://www.eurobutterflies.com/
www.ukbutterflies.co.uk
www.butterfly-conservation.org