Como é recorrente todos os anos por volta destes dias, os Circus pygargus chegam ao planalto do Vilarelho (Alijó). Este ano, os dois primeiros casais chegaram no sábado de Páscoa (03/04/2010), dois dias mais tarde do que o ano passado. A chegada de todos os casais nidificantes desta área (17-20) ainda vai durar umas duas ou três semanas, contudo é sempre bom saber que estão de volta.
Deixo aqui um pequeno vídeo de uma das progenitoras de 2008 mais as crias, onde podemos observar o seu comportamento irrequieto quando encontra o seu ninho sem um dos seus pintos, depois de observar algumas vezes as crias e de sentar em cima delas (como que se as estivesse a contar), eis que surge do meio dos tojos a inofensiva cria, que prontamente é segurada na cabeça pelo bico da progenitora e colocada junto dos seus irmãos.
Muito embora já tivesse visto várias vezes esta espécie atropelada, a primeira vez que tive contacto com um exemplar vivo, foi no final de uma noite de Verão quando descia da Serra do Alvão, que muito timidamente se deixou estar imóvel na berma de uma estrada, disponibilizando-nos (a mim, à Joana e ao Luís) o privilégio de o observar, fotografar e tocar pacientemente.
Identificação: O ouriço é provavelmente o mamífero mais fácil de identificar, pelo facto de ter a zona dorsal coberta de espinhos (cerca de 6 mil), que não são mais que pêlos modificados. Estes pêlos, bastante aguçados, têm entre 2 a 3 cm. O ouriço-cacheiro é maior insectívoro da nossa fauna, com um comprimento do corpo entre 18 a 20 cm e cerca de 1 kg de peso máximo, sendo o valor mais habitual os 700 g. A sua coloração é parda, mas ou menos escuro, dependendo dos indivíduos, mas o seu ventre é sempre esbraquiçado. Não têm dimorfismo sexual, visto que os testículos dos machos são intra-abdominais, a principal diferença é que o pénis está bastante avançado, enquanto a vagina se encontra muito próxima do ânus. As fêmeas têm cinco pares de mamas, dois peitorais, dois abdominais e dois inguinais. A fórmula dentária é: 3.1.3.3/2.1.2.3.
Espécies similares: Na Península Ibérica a única espécie similar é Atelerix algirus (apenas presente em Espanha), menos robusto, mais claro, com as orelhas proporcionalmente maiores.
Distribuição: Presente em quase toda a Europa Central e Ocidental, à excepção das zonas boreais e montanhosas da Península Escandinava. Pode ser também observado nos Países Bálticos como a Finlândia e a Estónia. O seu limite Oriental de distribuição é a zona mais Ocidental da polónia, Áustria, Republica Checa e Eslovénia. Em Portugal o ouriço é uma espécie abundante, com distribuição generalizada de norte a sul do país. Foi ainda introduzida nos Açores.
Habitat: Embora o ouriço tenha hábitos nocturnos, a sua observação é relativamente fácil principalmente ao amanhecer e ao anoitecer, perto de lagos ou rios, onde vai beber água e tomar pequenos banhos. Esta espécie ocupa uma variedade elevada de tipos de habitats, desde de zonas abertas de matos a zonas mais fechadas florestadas. Também é muito comum ocupar meios semi-urbanos, incluindo jardins. Em zonas mediterrânicas pode ser observado em zonas montanhosas, mas húmidas.
Biologia: Quando os recursos alimentares escasseiam e a descida da temperatura se acentua, o ouriço-cacheiro hiberna. Em Portugal este comportamento apenas é verificado em zonas de maior altitude, de clima marcadamente continental. Os animais antes de hibernar engordam para terem energia suficiente para o período de hibernação, durante o qual ocorrem uma série de alterações: os indivíduos baixam a sua temperatura de 35ºC para 9ºC; sua respiração diminui drasticamente (respirando 1 a 10 vezes por minuto); o ritmo cardíaco passa de 190 para 20 batimentos por minuto. Estando mais vulnerável a predadores enquanto hiberna, esta espécie escolhe buracos onde faz o seu ninho, que normalmente é em troncos de árvores, no solo ou em rochas. As construções humanas podem também fornece-lhe abrigos.
Reprodução: O período reprodutor estende-se desde Abril a Agosto, sendo fácil de notar os rituais de acasalamento, pois macho e fêmea andam cerca de uma hora em volta um do outro, enquanto vão fazendo um ruído semelhante ao resfolegar. Depois da cópula, o macho abandona a fêmea e só a ela cabe a responsabilidade de criar os jovens. Depois de 35 dias de gestação a fêmea dá à luz dois a seis crias, cegas e desprovidas de pêlo, pesando 10 a 25 gramas. As crias abrem os olhos a partir da segunda semana de idade e começam a sair fora do ninho à terceira, a partir dos 30-45 dias de idade deixam de mamar e começam a ser independentes. Normalmente cada fêmea apenas tem uma criação por ano, mas se houver disponibilidade suficiente podem ter uma segunda gestação. A mortalidade é elevada durante o primeiro ano de vida (até 70%), mas depois deste período a sobrevivência é elevada. A sua maturação sexual é atingida ao fim de um ano de idade.
Alimentação: Alimenta-se de todo o tipo de invertebrados, principalmente insectos e minhocas, que constituem cerca de 50% da sua dieta alimentar, podendo alimentar-se ainda de lesmas e caracóis, não rejeita ovos, pintos de aves, crias de roedores. Também come peixe, até porque é um excelente nadador.
Longevidade: Têm uma longevidade máxima de 7 a 10 anos, vivendo em média 4 a 5 anos
Curiosidades: Quando se sente ameaçado, enrola-se sobre si próprio, escondendo as suas pequenas patas e as áreas sem espinhos, e transforma-se numa “bola com picos”, bastante difícil de penetrar.
Ameaças: A principal ameaça parece ser a mortalidade provocada pelo atropelamento. Não foi comprovada nenhuma tendência regressiva e é abundante na sua área de distribuição. Não obstante, a redução de habitat poderá constituir uma ameaça para a espécie.
Medidas de conservação: Reduzir a utilização de insecticidas em zonas agrícolas. Gestão de áreas agrícolas com a manutenção de corredores ecológicos. Implementação de passagem para a fauna em “pontos negros” de rodovias.
Estatuto de conservação: De acordo como o Livro Vermelho de Vertebrados de Portugal (LVVP), o ouriço-cacheiro está classificado como “Pouco preocupante” (LC), fazendo parte do anexo III da Convenção de Berna.
Referências e Sites: Cabral MJ (coord.), Almeida J, Almeida PR, Dellinger T, Ferrand de Almeida N, Oliveira ME, Palmeirim JM, Queiroz AI, Rogado L & Santos-Reis M (eds.) (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza. Lisboa. 660 pp.
Exemplar registado na Serra de Montemuro (Luís Braz e Joana Medeiros).
Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Super Classe: Tetrapoda
Classe: Amphibia
Sub Classe: Lissanphibia
Ordem: Anura
Sub Ordem: Neobatrachia
Família: Hylidae
Sub Família: Hylinae
Género: Hyla
Espécie: Hyla arborea
Nome comum: Rela-comum
Identificação:
A Larva deste anuro possui o espiráculo situado no flanco esquerdo, membrana dorsal muito alta e que se inicia ao nível dos olhos, bico escuro e olhos relativamente grandes. A coloração é cinzenta esverdeada, com pintas e manchas douradas. O ventre é mais claro e a metade superior da região muscular da cauda apresenta uma banda longitudinal larga e escura ou com duas linhas escuras que se fundem logo no seu início. A cauda termina em ponta afiada e a membrana caudal possui um reticulado negro muito fino.
Adulto de tamanho pequeno, com cerca de 35-45 mm de comprimento. Cabeça mais larga do que comprida, com focinho curto e arredondado. Olhos proeminentes, com pupila horizontal elíptica e íris dourada. Tímpano pequeno mas bem visível. Extremidades anteriores e posteriores com 4 e 5 dedos, respectivamente, terminados em discos adesivos (≈ ventosas) o que lhes permite ter hábitos trepadores (conseguem trepar mesmo nas superfícies mais escorregadias). As patas posteriores possuem membrana interdigital bem desenvolvida. A coloração do dorso pode variar consoante o substrato, a humidade e a temperatura. Geralmente é verde, podendo ser castanha, amarelada ou mesmo azul. Em cada flanco apresentam uma banda escura, com margem branca, que se estende desde o orifício nasal, até à base da pata posterior. O ventre é esbranquiçado ou amarelado.
Hyla arborea de coloração castanha (registo e foto de Paulo Barros).
Espécies similares:
A rela-meridional (Hyla meridionalis), que se distingue da rela-comum pela banda escura lateral que se estende apenas até às extremidades anteriores e pelo canto.
Distribuição:
Encontra-se distribuída por toda a Europa (com excepção da Irlanda, Grã-Bretanha, Noruega, Finlândia e grande parte da Suécia), na zona compreendida entre os mares Negro e Cáspio, e na Ásia Menor. Em Portugal distribui-se por quase todo o território em núcleos populacionais fragmentados, com excepção do sudoeste, onde é geralmente substituída pela sua congénere Hyla meridionalis.
Habitat:
Ocorre em zonas húmidas com abundante vegetação, normalmente nas proximidades de charcos, cursos de água, pântanos, lagos e lagoas.
Biologia:
Espécie de hábitos crepusculares e nocturnos, embora possa apresentar actividade diurna durante os dias chuvosos ou nublados.
Reprodução:
O período reprodutivo inicia-se na Primavera. Os machos são os primeiros a migrar até aos locais de reprodução e atraem as fêmeas através do seu canto, em coro, sendo muito territoriais. Seguram as fêmeas pelas axilas (amplexo axilar) e a cópula pode durar várias horas. Cada fêmea pode depositar cerca de 400 a 1200 ovos, que formam pequenas massas esféricas. As lavas eclodem poucos dias depois e o desenvolvimento larvar dura 2 a 3 meses. Atingem a maturidade sexual aos 3-4 anos de vida. Os machos apresentam um saco vocal externo muito grande que, quando insuflado, chega a ser maior que o tamanho da cabeça. Quando o saco vocal não está insuflado, podem observar-se pregas cutâneas na garganta.
Alimentação:
As Larvas alimentam-se de matéria vegetal e detritos.
Nos Adultos a dieta inclui invertebrados diversos, nomeadamente aranhas, moscas, formigas, pequenos escaravelhos, percevejos e centopeias.
Longevidade:
A sua longevidade máxima no meio natural é inferior a 10 anos.
Curiosidades:
A rela-comum é mais fácil de ouvir do que observar. O seu canto assemelha-se a um "Crrruuáááá" prolongado.
Ameaças:
Alteração/Destruição/Fragmentação do habitat; Destruição da vegetação ripícola, bem como de locais de reprodução; Intensificação da agricultura, com recurso a pesticidas; Introdução de espécies exóticas; Poluição.
Medidas de conservação:
Manter a disponibilidade e qualidade dos pontos de água e da vegetação ribeirinha que constituem o seu habitat; Assegurar condições de dispersão entre núcleos populacionais.
Estatuto de conservação:
Embora em Espanha seja considerada “Quase ameaçado” (NT), a nível internacional (IUCN) a rela-comum está classificada como “Pouco preocupante” (LC), bem como em Portugal (LVVP). Faz parte do anexo II da Convenção de Berna e do anexo B-IV da Directiva Aves/Habitats (DL 140/99 de 24 de Abril).
Referências e Sites:
Cabral MJ (coord.), Almeida J, Almeida PR, Dellinger T, Ferrand de Almeida N, Oliveira ME, Palmeirim JM, Queiroz AI, Rogado L & Santos-Reis M (eds.) (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza. Lisboa. 660 pp.
Ferrand de Almeida, N; Ferrand de Almeida, P; Gonçalves, H; Sequeira,F; Teixeira, J & F, Ferrand de Almeida. 2001. Guia FAPAS dos Anfíbios e Répteis de Portugal. FAPAS e Câmara Municipal do Porto. Porto. 249 pp.
Loureiro A, Ferrand de Almeida N, Carretero MA & Paulo OS (eds.) (2008). Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, Lisboa. 275 pp.